A Adoração de Deus na forma feminina

A Adoração de Deus na forma feminina

Fonte: https://www.suddha.net/ – DR. JOSÉ RUGUÊ RIBEIRO JÚNIOR

Todos os anos, em um período astrologicamente determinado, entre os meses de setembro e novembro, os hindus e todos os fervorosos estudantes do Sanátana Dharma adoram a Maha Devi, a Grande Deusa, por nove noites consecutivas, colocando em cada período de três dias, um dos Seus aspectos e concluem o Puja (culto divino), no décimo dia, chamado Vijayadasami ou dia de glória, adorando a Maha Shakti Devi ou Yoga Devi, o Supremo Poder. Este período é chamado Navarathri Puja. Em 2017 ele se inicia dia 21 de setembro e culmina com o Vijaya Dasami (o décimo dia da vitória) no dia 30 de Setembro. Em todas estas noites realizaremos cerimônias no Suddha Sabha Yoga Ashram, com a presença dos Drs. Avinash Lele e Bharati Lele, médicos indianos participando dos cursos da Escola Yoga Brahm Vidyalaya no Brasil.

            Nas religiões semíticas como o islamismo, judaísmo e cristianismo, Deus é adorado como Pai. O culto à Mãe parece novo e estranho aos adeptos dessas religiões. Em realidade, o culto à Mãe Divina é mais antigo que o de Deus como Pai. Essencialmente, Deus não é masculino nem feminino. É a Realidade Absoluta. Mas sua adoração se faz, na relatividade da compreensão humana, dentro de padrões de percepção possíveis ao ser humano. Assim, as sociedades mais antigas, sendo matriarcais, tendo a mãe e esposa como chefe de família, se empenharam no culto a Mãe Divina, reconfortante para a mente, pois ninguém poderia superar a mãe em seu afeto para com o filho. Esta ideia era de grande ajuda para o devoto. No Svetasvatara Upanishad há um verso que diz: Tu és mulher; Tu és homem; Tu és mancebo; Tu és também donzela; Tu és o ancião que vacila com sua bengala; Tu nasceste com Teu rosto voltado para todos os lados. Este verso nos dá a percepção da múltipla manifestação divina. Esse culto à Devi, ao Poder Divino, foi chamado Shakta do qual participa o Tantra, sistema tão extraordinária, mas tão mal compreendido no ocidente, que tem dado guarida, pela ignorância, a toda sorte de distorções envolvendo o uso da sexualidade na busca da Plenitude.  Outras formas de adoração divina surgiram unificando o culto a Deus como Pai-Mãe, tais como Shiva e Shakti, Náráyaná e Yoga Devi, Rama e Sita, Krishna e Radha, tão decantados em versos de profundo sentido devocional, repetido pelos aspirantes espirituais em suas cerimônias diárias.

            Mas, consideremos a questão: qual o significado do culto à Mãe Divina e como pode nos auxiliar a cumprir as aspirações da vida humana neste mundo?

            A chave para a compreensão do culto à Mãe Divina nos dá um verso entoado pelos Sadhakas em suas meditações diárias:

OM Bhagavate Narayanasya Shaktim Yogadevim Suddha Teja swarupam upase. Lokashankarim Shaktim Sanah prachodayat.

Medito em Sri Yoga Devi, o esplendor de Náráyaná, formada de puro Tejas. Possa Ela vivificar em mim seu poder de fazer o bem nos mundos.

 A definição da Mãe Divina, Yoga Devi, como o esplendor de Náráyaná, formada de pura luz nos remete à compreensão profunda do conceito da Shakti. Náráyaná, aqui, é o Pamareshwara, Aquela Consciência Suprema, Eterna, Imutável, Única, Imanente e, ao mesmo tempo, Transcendente, substrato do universo, mas não afetado por ele (Nirguna Brahm). Podemos dizer que Ele é a Consciência em seu estado potencial (Sat Chit). Dele emana a Shakti, Seu Poder dinâmico que se transforma na multiplicidade de seres e formas, do angélico mais luminoso ao denso mais obscuro. Ela, a Shakti, é idêntica a Ele, o Purusha, em essência. Ela causa a origem, a sustentação e a destruição do universo. A Shakti é a mesma Realidade Suprema manifestada como Força ou “impulso vital”. O Sammohana Tantra diz: “Sem Prakritti ou Shakti não poderia existir o samsara (processo do mundo). Sem Purusha ou Shiva não se pode alcançar o verdadeiro conhecimento. Portanto, os dois devem ser adorados: Mahakali e Mahakala”. Portanto, para aqueles que compreendem o Universo como uma “condensação” da Shakti e, neste papel Ela é chamada Mayá, não há espaço para se traduzir esta palavra como ilusão. Em outras palavras, o Universo não é uma ilusão, mas sim o campo de atuação dos Jivas ou almas evolutivas em sua eterna aproximação ao Supremo e a Divina Mãe proporciona esse campo. Por sua característica de mutabilidade ou transformação ele, o universo, é chamado verdade relativa  e Brahm, a verdade absoluta, caracterizada pela imutabilidade, essencial em tudo

            Coloquemos um exemplo para tentar elucidar tema tão profundo. Quando dizemos que o Sol dá vida a Terra, não nos referimos à possibilidade dele sair de seu lugar no centro do sistema solar e vir à Terra proporcionar os atributos da vida. Entendemos que sua luz, que possui inerente todas as suas qualidades, emanando dele, chega à Terra e, interagindo com nosso planeta, proporciona seus atributos de calor e vida. A luz do sol e o sol têm os mesmos atributos e propriedades, sendo ela seu aspecto dinâmico.  Em realidade, de fato quem proporciona vida aos planetas é a luz do sol e não o próprio. Grosseiramente, essa seria a similaridade entre Purusha e Shakti, Sol e Luz do Sol. Este exemplo seria ainda mais adequado se pudéssemos dizer que na própria formação da Terra a luz do sol se condensou originado-a! Prakritti, a matéria raiz de todo o universo, é a condensação da Shakti.

            Como a Shakti, a Mãe Divina, se manifesta através dos diferentes seres e objetos do universo? No reino mineral se manifesta como a inteligência das partículas que formam os átomos e da organização desses átomos como moléculas. Ela, a Mãe Divina, se manifesta como calor, luz, som, magnetismo e eletricidade, por isso, chamada Bhuta Shakti ou a energia dos elementos.

            Ela se apresenta em quatro grandes aspectos, quatro manifestações cósmicas que são os Poderes fundamentais: o poder do conhecimento, o poder da vontade, o poder da ação e o poder da síntese.

           Personificando o Poder do Conhecimento (Gnana-Shakti)  Ela é adorada como Saraswati, a  Deusa da Sabedoria, das Artes e das Ciências. O Poder da Vontade (Iccha-Shakti) é representado pela Divina Mãe na forma de Lakshmi, a benevolente Deusa da Prosperidade, da preservação do Dharma, da Beleza, da Bondade. Como Durga ou Kali, Ela personifica o Poder da Ação, a força avassaladora que “quando se manifesta no éter do coração reduz a cinzas os impedimentos provenientes da separatividade” e, “antigo Terror dos desígnios iníquos”, tal como Arjuna declarou no campo de batalha de Kurukshetra. Swami Vivekananda expressa de maneira extraordinária essa visão da Mãe Divina como um Poder destruidor da forma no sentido de produzir o movimento cósmico e a transformação evolutiva:

Vem, Mãe, Vem!

Pois Terror é Teu nome, a Morte está em Teu alento e cada passo que dás destróis um mundo eternamente. Tu, Tempo, a Onidestruidora.

Vem, Oh Mãe, vem!

“Sua graça é ilimitada; Sua misericórdia é ilimitada; Seu conhecimento é infinito; Seu poder é incomensurável; Sua glória e inefável; Seu esplendor é indescritível. Ela lhe dá Bhukti (prosperidade material) e Mukti (liberação)”.

Narayanananda

(Dr. José Ruguê Ribeiro Júnior)