Sobre o significados de Sacerdotisa

BETH – A SACERDOTISA:
O Arquétipo da Mulher, do Profeta e do Artista
© Dalva Agne Lynch

Quem é a Sacerdotisa? A que se coloca como intermediária entre os Poderes do Infinito (o Pai) e o Homem (o Filho). A que se coloca entre o elemento masculino do processo da Criação, e o Ser criado. A que ouve a voz das Estrelas, e a transmite ao mundo.

Assim, a Sacerdotisa é também  a Mulher e a Mãe, a que ouve o lamento dos homens, e levanta os braços em direção aos Céus, intercedendo pelos que a cercam, dando-se a si mesma. A que escuta a voz do Filho, e intercede por ele junto ao Pai. É deste conceito perene da Verdade Superior que se originou a figura de Maria, no Cristianismo.

A Sacerdotisa é, portanto, o arquétipo do Profeta e, conseqüentemente, do Artista.

Há muita verdade nos mitos e fábulas, religiões e crenças. O fato de terem se tornado um conjunto de regras muitas vezes insólito não quer dizer que sejam falsos. Pelo contrário: esses mitos, fábulas, religiões e crenças refletem a realidade espiritual como um espelho, no qual um grupo de pessoas vislumbra os Mundos Superiores dentro de seus próprios parâmetros, que necessariamente serão diferentes dos de outro grupo de pessoas – daí a variedade destes mesmos mitos e fábulas e religiões e crenças.

Isto tudo se revela em grande parte na obra do Artista – no processo criativo, naquela parte de nós que nos compele a escrever, pintar, moldar, esculpir, erigir, montar. Ou seja, a força propulsora de nossa criatividade, que nos compele a recriar o mundo à nossa volta, ou a evocar o mundo que temos no mais íntimo de nosso ser, expondo-o.

E o que nos compele desta forma tão premente?

Cada um daqueles mitos, fábulas, religiões, crenças, mostra-nos a existência de uma Força irresistível, incomensurável, aparentemente incognoscível, que está ao nosso redor, no nosso interior, por toda parte. Alguns lhe dão o nome de Deus, outros de Energia, outros ainda a separam de acordo com suas diferentes manifestações, chegando ao conceito de deuses, anjos, demônios. Mas todos, no fim, reconhecem a sua existência, mesmo que seja sob o nome de eletricidade, que pode ser vista através de sua manifestação mais óbvia: o fogo e a luz.

Ora, o que nos impele à criação é justamente a parte de nós que VÊ. Assim, todo artista é, antes de mais nada, um visionário. Ele vê algo que os demais não vêem, e o retrata segundo a sua realidade. O artista é, então, uma espécie de arauto de Mundos além do nosso – transmitindo visões e sons percebidos apenas por ele.

Ou seja, o artista é a antena da humanidade, captando e transmitindo aos demais imagens e sons que já pré-existem em outras esferas, mas que estão além dos sentidos do homem comum. O artista é um… Profeta. E por que digo isto? Porque tudo é transformável – não é “criado” do nada. Ou seja, o artista é o que transforma o Infinito em linguagem cognoscível. É o elo entre o Infinito e a humanidade.

E é este mesmo Infinito, então, que o propele à criação, urgentemente, exclusivamente – muitas vezes de forma inconsciente. É a Força criadora do Universo, e que habita no Artista.

Eu costumava chamar a essas forças de criação dentro de mim de meus “demônios interiores”.  Agora sei que o nome era verdadeiro, já que “daemonos” não significa diabinho de chifres e garfo, mas sim “entidade”. E “entidade” não significa fantasma ou espírito ou alma, mas sim… FORÇA. Bem semelhante à energia elétrica, à qual precisamos conectar nossos aparelhos para que funcionem.

Assim, o Artista é aquele que se conecta, e a energia que ele recebe através desta conexão é o que o propulsiona a criar. Como tal, ele é a parte receptiva do Uno – o Profeta. Ou seja – ele é Beth, a Sacerdotisa

A Sacerdotisa é a misericórdia, nascida de todas as aflições e de todos os temores humanos. Ela é, enfim, a Mulher – Maria, Eva, Lillith, Ma’at, Isis, Astarte, Hécate, Vênus, Hera, Selene, Diana, Freyjah, Brunheld, Chandra, Durga, Gaya. É o ventre e o útero de todas as coisas. E é o coração e a força de Aleph, o Mago, arquétipo do Homem.

O fruto que advém da união Mago/Sacerdotisa – de Aleph com Beth – é, ou deveria ser, a seta que aponta ao homem comum a direção que ele deve – ou não deve – seguir. Daí os frutos do união do Mago (o Homem) com a Sacerdotisa (a Mulher) serem o Imperador e a Imperatriz (Atus IV e V, os Filhos, regentes dos Reinos materiais deste Mundo).

Artista (Criador) > Arauto > Profeta > Beth > Mulher > Sacerdotisa.

Por ser criadora e profeta, a Sacerdotisa é a que tem o poder de mudar o destino do Universo. Isto, porém, só ocorrerá quando ela transcender sua posição binária (Entendimento e Conhecimento) e atingir a Sabedoria (Chochmah). Porque ainda que nela se consuma a Força criadora, formando o yin e yang – positivo e negativo,  ela nunca chegará ao que almeja se não der origem a algo mais, se não produzir fruto – se não transcender a si mesma, dando à luz – assim formando o Ternário máximo da Árvore da Vida.

Aleph é o Homem. Beth é a mulher.

A Sacerdotisa segundo a Kabbalah Talmúdica
Beth, a Sacerdotisa,  é tipificada na Kabbalah por Uroboros, a serpente que morde a própria cauda, revolvendo-se em si mesma. Como já foi dito, ela precisa sair de si mesma e dar à luz. É quando ela se abre ao falo de Alpha (a cauda superior à direita, em Aleph), que produz fruto, dando à luz a Sabedoria.

“Beth é formada pelo Eterno com Sabedoria, fechada por todos os lados mas aberta na frente. Se não fosse por Beth na cauda de Aleph, o mundo não poderia existir.” (Sefer HaBahir, 15 – Kabbalah)

“Nao se leia Beth, mas sim Beith (casa), porque está escrito: Com sabedoria se constrói a casa(Chochmah), e com compreesão ela se afirma (Binah), e com conhecimento (Da’at) se lhe enchem os aposentos [Provérbios 24:3]” (Sefer HaBahir, 14)

“O que é o homem? O iniciador, aquele que destrói, cultiva e semeia. O que é a mulher? A formadora, a que reúne, rega e colhe. O homem faz a guerra e a mulher procura a paz; o homem destrói para criar; a mulher edifica para conservar; o homem é a revolução; a mulher é a conciliação; o homem é o pai de Caim; a mulher é a mãe de Abel. O que é a Sabedoria? É a conciliação e a união de dois princípios; é a doçura de Abel dirigindo a energia de Caim; é o homem seguindo as doces inspirações da mulher; é o vício vencido pelo matrimônio; é a energia revolucionária dulcificada e domada pelas suavidades da ordem e da paz; é o orgulho submetido ao amor; é a ciência reconhecendo as inspirações da fé.” (Eliphas Levi, Dogma e Ritual da Alta Magia, cap.2 do Dogma: A Sacerdotisa)

A Sacerdotisa é a Casa (Beit) onde os mais fracos se sentem acolhidos, protegidos da ira paterna e das interpéries da Vida.

Mas, como a Mulher que é, a espiritualidade e a mágicka da Sacerdotisa é prática, esperta, materialista. Ela usa sua arte e sua astúcia no mundo material, para proteger os que dela dependem, seus filhos. Ela é a Fêmea de todas as espécies. A loba. A ursa. A fera selvagem defendendo a prole.

Mas ela também é fechada como Beth – fechada a tudo o que não seja o que se lhe dá semente. A Sacerdotisa não compartilha o que é seu. Ela é o símbolo da pureza e da fidelidade.

Examinemos a letra do Atu II – Beth, sob o enfoque do Sefer Yetzirah:

Beth é uma letra dupla: tem dois sons. Tanto soa como B, quanto como V. Mas não é o B bilabial de nosso alfabeto, mas um som explosivo, que pode ser transilterdo muito melhor como Bh. Este som é produzido enchendo-se as bochechas de ar, e deixando-o escapar de repente, por entre lábios semi-cerrados. Por sinal, este é o som “duro” de todas as letras duplas do alfabeto hebraico, como veremos em outros Atus.

Talvez tenha sido devido a este fato que Crowley chamou a Sefirah Gevurah de Geburah, na Qabalah Thelêmica, já que o som duro de Beth é Bh, e, para o ouvido ocidental, o som Bh pode muito bem ser confundido com o Vav (V) de Gevurah. Isto causou muitos problemas a Crowley, que não conseguiu entender algumas implicações guemátricas, e precisou a chegar à compreensão de Gevurah através de outras correlações. Modificar um som em uma palavra mudifica toda a sua guematria, e, por conseguinte, o sentido e significado da Sefira Gevurah foi inteiramente modificado. Talvez seja por isto que o Thelemita tenha um conceito muito extremista do que significa Gevurah, ou seja, Poder.

Ora, Gevurah não é o Poder do poderoso, mas sim a Força do forte – e isto inclui força de caráter, honra e dignidade – qualidades inexistentes no conceito de Poder.

Mas voltemos à Sacerdotisa.

Beth, a Sacerdotisa, é, portanto, dupla: ela é dura e é gentil. Beth tem duas personalidades. Duas caras. Duas defesas. De um lado, ela é macia e suave como o som “V”; por outro lado, é dura e abrupta como o som “B”.

A transmutação da Sabedoria é a estultícia“, diz  Sefer Yetzirah 4: 3. E, em bom português, estultícia é babaquice. Ou seja, a Sabedoria se transmuta em estultícia.

Beth, na Árvore da Vida, é o caminho de cima para baixo e de baixo para cima: ela leva direto do Amor (Chesed) à Sabedoria (Chochma). Linha reta, nada de entremeio. O amor verdadeiro leva você à direto à sabedoria, a um degrau do Universo total. O caminho entre os portais das Sefirot, através de Beth, catapulta o Ser do amor à sabedoria, em uma só linha reta.

Beth é governada por Saturno no Universo, e seu Anjo (ser espiritual) é Kaptziel. Podemos entrar em todas as especificações de Saturno aqui, mas a principal é a sobriedade do Ser que recém cruzou Da’at,o Abismo. Ele chega ao Entendimento (Sefirah Binah) apenas depois de ter atravessado a Noite Escura.

Diz Sefer Yetzirah 4:8: “Faça a letra Beth reinar sobre a Sabedoria (Sefirah Chochmah), ate-a a uma coroa (Sefirah Kether), combine-a (faça permutação) com outras (as letras do Sagrado Nome Impronuncíável, o Tetragramaton – YHVH), e com ela forme:

A Lua no Universo (lugar)

Domingo no Ano (tempo)

O Olho direito na Alma. (corpo)”

A cor de Beth, a cor da Sacerdotisa, é o branco. Sua direção é o Sul. Sua hora é o início do dia de Domingo, ou seja, desde o Sábado às 17:45 mais ou menos, até às 17:45 de Domingo.

E assim analisamos a Sacerdotisa. Mas não esgotamos, de modo algum, suas implicações. Afinal, ela é também a união dos dois triângulos que formam o Selo de Salomão (Estrela de David, Magen Dawid), e o par de asas que eleva o homem de sua mera condição humana à Sabedoria – através da humildade do Amor.