O princípio feminino: os estágios mitológicos, seus símbolos e arquétipos correspondentes

O Princípio Feminino

O princípio feminino: os estágios mitológicos e  seus símbolos e arquétipos correspondentes – do ponto de vista da polaridade masculina

Para refletirmos melhor sobre o simbolismo arquetípico ou transpessoal do ‘feminino’, precisamos antes entender o princípio feminino e ainda, o simbolismo anterior recebido dos mitos da criação.

Os símbolos desses princípios se apresentam através da mitologia de diversos povos e épocas e também podem ser representados para descrever os estágios de desenvolvimento, de acordo com a visão de Erich Neumann, apoiado por Jung. Essa também é uma forma muito apropriada, para este trabalho, para entender esses estágios psicológicos da consciência humana que estão associados a estágios mitológicos e seus arquétipos correspondentes.

Os estágios arquetípicos descrevem as etapas de desenvolvimento (ou despertar) da consciência, sendo que as projeções arquetípicas do inconsciente coletivo são representadas pelos mitos.

Estes estágios são associados a ciclos mitológicos, ou seja, o material da psique é projetado na mitologia, que começam com o mito da criação do qual se divide nas etapas do nascimento, sofrimento e emancipação do ego. No segundo ciclo encontramos o mito do herói, que representa o estágio de conscientização e reflexão do ego, do mundo e da própria consciência e o terceiro, a conscientização do self como centro da psique.

Assim, no princípio a psique está ‘aberta, indistinta e idêntica’ ao mundo, reconhecendo-se como o mundo e através dele, “ela experimenta suas imagens como os céus estrelados e os seus próprios conteúdos como deuses criadores do mundo.”[1]

De acordo com Neumann e Ernest Cassier[2], a criação do mundo é inicialmente representada pela criação da luz, assim a consciência manifesta-se como luz, originada das trevas do inconsciente. A luz seria então a causa para que o mundo possa ser percebido.

Porém antes da criação da luz, há a perfeição original onde todos os opostos se encontram unidos, o ‘Autocontido’, o eterno que não tem começo ou fim, completo, auto-suficiente, independente de qualquer ‘outro’, porém sem forma, estático, em total repouso. Da mesma forma a origem, a semente da criatividade, também ‘não está’ ou ‘têm espaço’. Essa unidade tem como símbolos o círculo, o ovo do qual o mundo se origina, um ‘dragão primal do princípio e a uma cobra circular mordendo a própria cauda, a autogerada, a Uroboros.

A uroboros é um símbolo encontrado no Egito, antigas Babilônia e Fenícia. “É o arquétipo do ‘Tudo isso é Um’, ‘O Todo é Um’, aparecendo como Leviatã e Aion, como Oceano e Ser Primal, que diz: Sou o Alfa e o Ômega,…a divindade mais antiga do mundo antes do mundo”[3]. Este símbolo representa os paradoxos referentes ao ‘princípio’, como ‘tudo’, totalidade, unidade infinita, ‘nada’, ‘não diferenciação ou ausência de opostos’, perfeição, auto-suficiência. É o símbolo que correspondente ao estado inicial do ser humano, como individualidade e como humanidade. Ele também é transpessoal, pois se encontra no estágio psíquico anterior a existência e experiência do ego. Assim, é como uma época paradisíaca, pré-mundana, onde o envolvimento é totalmente inconsciente, anterior a qualquer noção de opostos.

Também encontramos essa mesma idéia na filosofia hindu mais antiga, no sistema tântrico, da época pré-védica. Este princípio pré e além ego, para os tântricos, é chamado de “Parama-Shiva – Realidade Definitiva, Metaprincípio – Attatva”, o princípio definitivo, consciência pura, irredutível identidade de tudo o que possa existir, sujeitos e objetos contém em si mesmo tanto o aspecto masculino ou Consciência dessa Realidade, chamado de Shiva, como o aspecto feminino ou poder procriativo ou Energia dessa Realidade, chamado de Shakti. Ou seja, a Realidade Única tem em si a consciência no ‘Eu’ (aham) e ‘Isso’(idam); sujeito e objeto, aspectos subjetivos e objetivos da existência, porém inseparáveis, indistinguíveis. Parama-Shiva é o Um que pode torna-se Muitos. Daí surge o Sadakhya – Aquele que é chamado Ser (Sat) – ou Sada-Shiva (Sempre Benevolente) é Vontade Transcendental (iccha) que reconhece e afirma o ‘Eu’, porém enfatizando o aspecto subjetivo desse ‘Eu’. Em seguida, o ‘Eu’, o Criador (Ishvara) se realiza, isto é, enfatiza-se o lado objetivo do ‘Eu’, iniciando então o estágio de ‘evolução’ cósmica. Ainda existe um equilíbrio entre subjetivo e objetivo, mas já são distinguíveis, é o estágio Sad-Vidya (conhecimento do Ser) ou Shuddha-Vidya (Conhecimento Puro). Daí em diante entramo-nos nos princípios limitantes, pois o Ser inicia a percepção da separação do sujeito e do objeto, e por isso, vê a existência como algo impuro e limitante, ou seja, ele se cobre com os (cinco) véus (coberturas-kankura[4]) da ignorância, da ilusão (maya), gerando o próprio sofrimento. Essa maya é que dá origem então as polaridades, sujeito consciente (Purusha: Espírito – Átomo-Mônada), ou self, que vivencia a realidade objetiva e a realidade plenamente objetivada, ou seja, a natureza (Prakrit: Nutriz), a matéria. Até Purusha desdobra-se tudo o que é do aspecto subjetivo da existência. Em oposição, até Prakriti (a Matéria, substância primordial), que é o aspecto dinâmico, possui três modos de ser, permitindo a manifestação trina chamada de Guna (qualidades da matéria: luminosidade e inteligência, energia motriz e atividade mental, inércia e obscuridade psíquca). As três gunas aparecem juntas em todos os fenômenos físicos e psíquicos, porém em proporções diferentes. Assim, através de Prakriti desdobra-se tudo o que é do aspecto objetivo da existência, inclusive, Budhi (mente superior, compreensão faculdade mental da ‘inteligência’, capaz de distinguir, além da razão – mente iluminada) que aí desdobra-se em Ahankara (o eu-artífice, o ego, o princípio da individualização, aquele que se apropria de experiências). O Ahankara deriva tanto em Manas (mente inferior, sintetiza as impressões sensoriais de conceitos e imagens), como nos cinco sentidos da cognição ou percepção (Jnana-Indriya), nas cinco faculdades da conação (karma-Indriya: comunicação, manipulação, locomoção, digestão, procriação) e nos chamados cinco elementos sutis ou potenciais para as percepções sensoriais (Tanmatra) que densificam nos cinco princípios da materialidade (Buta[5]), que estão presentes em tudo o que existe; seres e coisas. [6]

Assim, na filosofia chinesa, na visão também mais antiga do Tao, esta eternidade, além do tempo, do espaço, do ego, da consciência, do mundo, é chamada de Tao, o Todo icognosível – não simbolizável , portanto- cuja natureza só pode ser apreendida por inferência.…………….O Tao evoca o Wu Chi cujo símbolo é o círculo vazio. É o Vazio Primordial, a totalidade auto-contida, onde coexistem ação e quiescência e o zero. Ele é pleno de potencial, mas vazio de formas. O Wu Chi, também é inefável e inapreensível como Tao. (Essa plenitude vazia) É o germe de todas as possibilidades que serão ou não realizáveis. É a dimensão, é ilimitado em tempo e espaço, é também chamado de Céu Anterior, o útero do TAO, onde a esfera de tudo que pode se manifestar se encontra prefigurada. Quando ocorre uma “cisão sem cisão”, essa  unidade expressa sua contraparte dual: surge o Tai Chi, que tem todo o potencial, a energia que surge após o vácuo, a multiplicidade que é somente um reflexo da unidade. No Tai Chi, os fenômenos estão polarizados, ou seja, os opostos estão diferenciados em Yang (sutil, não material, ativo, céu, luz) e Yin (denso, matéria, passivo/receptivo, terra, sombra) que se interagem, através dos cinco agentes e suas fases (também chamados de movimentos) e originam tudo o que existe, inclusive o ser humano[7].(…) O Tai Chi é representado também por um círculo, mas contendo a metade yang, porém incorporando um pequeno círculo da essência Yin e a outra metade Yin, também incorporando um outro pequeno círculo da essência Yang, para demonstrar a total interatividade desses opostos. Yang simboliza as dinâmicas assertivas, de caráter ativo, agressivo; o “masculino” (Madeira – o início – e Fogo – expansão e apogeu). Yin simboliza as dinâmicas regressivas, receptivas, “feminina” (Metal – declínio e Água – derradeiro, onde germina um novo ciclo). Ainda no centro do círculo está Terra, onde há a conciliação ou comunhão e sustentação das forças oponentes. Este centro é onde deve estar a verdadeira consciência, que significa a existência, que é a mediadora entre Céu, luz e Terra, trevas. Também para esta filosofia, como já vimos na filosofia indiana, esses Cinco Movimentos ou fases de transformação organizam os eventos da natureza e humanos, no qual são representados pelas atividades fisiológicas dos órgãos internos que estão relacionados diretamente com atividades psíquicas e espirituais.

Outra versão da cosmogonia são os ensinamentos místicos da Cabala, pertencentes ao Zohar, o seu principal texto, que inclui diversos livros.  Aqui, como nas outras versões, a Realidade é eterna, ou seja não há tempo inicial, nem final. Essa Eternidade é uma espécie de força que se expande infinitamente, uma Energia ilimitada, que tem tanto em sua essência como em sua substância, a natureza de dar, transmitir, compartilhar, satisfazer infinitamente. Porém, essa fonte doadora de vida, de plenitude não se completa se também não houver uma natureza receptora.  Para qualquer irradiação dessa energia deve haver uma aspiração a ela e vice versa. “Esta Energia é definida como Primeira Causa, o Receptor é definido de forma adequada como Primeiro Efeito… Uma Energia infinita e um Receptor infinito. Causa e Efeito. Dar e Receber.”[8] Energia e Receptor ainda não formam uma dualidade, são como dois caracteres de uma mesma unidade, que fluem infinitamente. Berg faz uma analogia com a água dentro de um copo de gelo: “O corpo é o recipiente, o Receptor. A água o doador – A Luz. A água enche o copo assim como a Luz enche o Receptor.” [9] Conforme a Energia-Luz  preenche o Receptor, este recebe e ‘herda’ os próprios atributos da Luz, ou seja o de doar plenitude e ser ativo no processo ‘criativo’. Neste momento, surge um novo anseio ao Receptor, “ser a causa de sua própria satisfação”[10] e expressar também esses atributos.  Ë como se o Receptor não quisesse receber espontaneamente essa plenitude e sim como se desejasse ‘fazer por merecer’. Com esse desejo o Receptor resiste à Luz e então, pára de recebê-la. Ao afastar-se a Luz cria um espaço vazio e se contraí, enrolando seis de suas dez dimensões, que se tornam apenas uma. Essas seis dimensões que se concentraram em apenas uma constitui o Mundo Superior que possuí 99% da Luz, enquanto as outras quatro originam o universo que percebemos, tridimensional com o espaço-tempo como a quarta dimensão, que fica, praticamente, na escuridão com apenas 1% de Luz.  Aí é que o mundo dos fenômenos se origina, é o momento do Big-Bang, quando o caráter receptivo se divide em dois aspectos, um, energia masculina e outro, energia feminina, estes chamados de Adão (próton) e Eva (elétron), que não significavam pessoas, mas códigos, ou seja símbolos. Enquanto o aspecto feminino recebe a Energia Universal, o aspecto masculino exprime-A no mundo, pela ação.

O desejo de ser a fonte de Luz e, por isso, a recusa ou resistência à Luz espontânea é a causa da origem deste Mundo, o mundo de Maya (ilusão) conhecido da sabedoria oriental indiana, também chamado, pela tradição budista, Samsara (ciclo de mortes e renascimentos que é gerado pela ignorância que leva ao sofrimento). Essa resistência faz do ‘antigo’ passivo Receptor um Receptor reativo que tem agora como meta (já que quer fazer por merecer) transformar-se em Receptor proativo. A Luz se faz presente apenas nos 1% das quatro dimensões que constituem esse nosso Mundo, por isso, a única forma de receber a luz ou entrar em contato com ela novamente é aprender a ser proativo com ela e não reagir a ela, como se faz o tempo todo. Afastamos dela quando somos reativos ao nosso próprio mundo e assim o ‘recriamos’ novamente.  Ser reativo ao mundo é agir, ou com apego a ele ou com aversão; se desejamos demais o prazer agimos no nosso ‘negativo-escuro’ pólo masculino-prótons , mas se desejamos demais evitar a dor agimos no nosso ‘negativo-escuro’ pólo feminino-elétrons,  a neutralidade, o equilíbrio está em não reagir (não desejar agir), resistindo não à Luz e sim a nós mesmos, a nossos impulsos e somente agir de forma proativa, ou seja de forma não excludente, que não bloqueie a Luz, nem para si, nem para o outro. Isso nos conecta enfim a Realidade, a Luz Infinita.

É importante lembrar aqui que Luz é um dos símbolos da consciência, podendo ser expressão da energia psíquica que se manifesta como libido ou, num outro nível como afetividade. Para os essênios a Luz era uma força espiritual criadora, sendo o sêmem e o sangue menstrual substâncias dessa força.

Como pode-se perceber nestas quatro perspectivas o estágio de aparecimento ou emanação do ego só acontece depois de alguns desdobramentos da unidade ou totalidade original e seu estado mais superior de desenvolvimento é paradoxalmente quando ele se dissolve a si mesmo.

Poderíamos usar qualquer versão para organizar os estágios de desenvolvimento, de forma a entendermos melhor a presença e função do feminino em cada um deles, porém escolhemos a perspectiva de Neumann, porém, em oito fases e tentando usar o que não contradiz nenhuma das outras.

(1ª fase) – Pleroma e uroboros:

A primeira fase é o que ele chama de estágio pleronário e urobórico, por ter como símbolo, a uroboros. Ela é um símbolo primordial da plenitude infinita e, ao mesmo tempo, do nada. Também representa a união dos contrários masculino-feminino, o pai e a mãe ancestrais, chamados de Pais do Mundo e contém, por isso, tudo dentro de si, toda a pluralidade, o cosmos, sendo origem do espírito, da alma e da vida. A consciência ou ego nesta fase é embrionário, ainda está contido na uroboros e mal se distingue dela.

O uroboros contém uma polivalência simbólica; o Grande Feminino, que corresponde ao feminino positivo e ao feminino negativo, e o Grande Masculino, que é o masculino positivo e também o masculino negativo. Por isso, nesta infância do ego, ele experimenta naturalmente e fluidicamente tanto o poder gerador e a proteção do feminino maternal como a força devoradora, aprisionadora feminina, também vivencia a força masculina ativa que protege sua consciência e ego, mas também a agressão assassina do masculino terrível. É importante observar que aqui o ego não separa o Grande feminino do masculino, nem positivo e negativo.

Neste estágio dos Pais do mundo, os opostos, ou seja, em cima – embaixo, céu-terra, externo – interno, bom – ruim, masculino-feminino, consciente-inconsciente, luz- escuridão, coisa- lugar, tempo-espaço, eu-tu, ser-mundo, não existem, ou seja, são percebidos de forma simultânea, fluídica. Como unidades, todos esses contrários contém, em si, múltiplas possibilidades, por isso são dotados de sacralidade e mana.

(2ª fase) – Grande Mãe e Mãe Boa:

 Pieta by Michelangelo

Figura – Pietá

Nesta fase já pode ser percebida uma diferenciação entre o Grande Feminino e Grande Masculino, destacando em seguida, o Grande Feminino da Uroboros original.

Por ser também um símbolo da origem de tudo, a uroboros é a representação do ventre, útero primal materno. Neste aspecto,  ela é a Grande Mãe Primordial e simboliza tudo que consideramos profundo, grande, envolvente, nutridor, protetor, como o mar e seu fundo, o abismo, a caverna, a terra, a tumba, a cidade, a casa, todas as coisas ocas, também o órgão genital feminino. Por isso, predomina o lado maternal positivo da uroboros, onde o ego é bem infantil, pequeno, frágil, flutuante, sonolento, sem vontade e ação própria, instintivo, experimentando o mundo e ele como uma coisa só, como bem envolvente, confortado, sustentado, alimentado e protegido pela uroboros maternal, que une aqui vida e psique. Aqui o ego experimenta prazer e amor de forma mais receptiva, passiva, como um desejo de absorção e dissolução. Desta forma, neste estágio inicial psíquico da humanidade e do ego essa Mãe é a Mãe Boa que refugia, acolhe e auxilia o ego em seu sofrimento, realiza e doa tudo para ele.

O ego, a consciência humana, é como o filho originado dessa uroboros, os pais primordiais, que é tanto o ventre da uroboros maternal, as profundezas do inconsciente (que contém o estado indiferenciado), como também (como foi dito antes) o uroboros paternal, o impulso criador, ‘a roda que gira por si mesma’, o movimento primário, ‘o elemento criativo do ato gerador’[11]. Porém, esse processo não é tão simples de compreender, porque a Mãe urobórica não participa do ato procriativo, ou seja, “O lado maternal da uroboros dá a luz sem procriação, do mesmo modo que o lado paternal procria sem ventre materno”. O ego, ainda como um pré-ego, apenas um germe, mergulhado, envolvido na uroboros maternal, tem a fonte (ou memória) de todo o conhecimento ou sabedoria, é autárquico, mas é ainda como luz, não está centrado nele mesmo e por isso tem essa sabedoria plena. Quando começa a obter autoconsciência, dissociando-se e distinguindo-se como distinto da uroboros maternal, do inconsciente, esta aparece para ele como Grande Mãe e ele afirma sua alteridade masculina, tanto como filho, como parceiro/amante desse feminino-maternal inconsciente. Mas no começo desse novo processo, este ego ainda não se iguala em potencial com a Grande Mãe, ou seja, esse princípio masculino ainda não é um princípio paternal (masculino-paternal consciente) que pode-se equilibrar a ela. Por isso a primeira manifestação do poder do ego é como filho (que começa dentro do feminino-mãe-incosnciente) e só depois como pai (masculino-pai-consciente).

Para Bachofen, o princípio masculino está subordinado ao da mãe. “O homem surge como criatura e não como criador, como efeito e não como causa… (a Mãe) está antes da criatura; ela se apresenta como causa, como primeira doadora de vida, e não como efeito. Não é para ser reconhecida como criatura, mas por si mesma…existe primeiro como mãe e o homem, como filho. … o princípio feminino e maternal da natureza está em primeiro plano; ele toma o princípio masculino – secundário, um constante vir a ser, existente apenas em forma perecível e em constante mudança.”[12] Mas podemos entender isso dentro da perspectiva mais ampla, pois estes estágios acontecem antes e na formação do ego, e somente com a sua noção podemos definir uma seqüência espaço-temporal (um antes e um depois). Além disso, quando Bachofen fala mãe e homem, podemos pensar, respectivamente, em princípio feminino, potenciais geradores, porém passivos, receptivos e o ego.

Desta forma compreendemos que no momento em que a uroboros feminino-masculino (Pai e Mãe) ‘resolve’ se manifestar como ego (criatura), ela, primeiro, deve ‘encarnar’ seu aspecto feminino-mãe virgem (não-relacionada, independente de um parceiro, potencialmente fecundadora, nutridora, mas não paridene (paridente) e, por tudo isso, sagrada, ‘espiritual’, ‘transpessoal’ – vaso- útero – vazio) que gera a semente para este ego (a luz) e essa luz se densifica até se tornar um ego real. Essa mãe, que é num primeiro momento a fecundadora, nutridora, é, depois, a virgem, que está aberta, receptiva, agindo nela, um elemento procriador masculino, que no início é anônimo, mas suprapessoal (‘espiritual’-self) e, ao mesmo tempo subordinado a ela (como filho-ego). A Mãe, essa estrutura psíquica do inconsciente, representa, em todos os caracteres, sempre aspectos que não se alteram, tanto positivos, como negativos; nossos instintos e impulsos (num caráter elementar) ou de cura, de amor, de apoio, de redenção e do aspecto permanente do ato criador (caráter transformador, ex. Sophia).

(3ª fase)  A Mãe-terrível – Mãe Negativa:

Esta fase configura-se na diferenciação da Grande Mãe em Mãe Bondosa, Mãe terrível e Mãe Bondosa-má.

Assim como existe a força e desejo naturais do ego em permanecer no inconsciente, também há uma atração oposta, ‘não natural’ para que o ego seja consciente.

Somente o ser humano possui esta força, que por isso é ‘não natural’, ou seja, está em oposição a natureza, ao inconsciente, a Mãe urobórica. Por se colocar em oposição a Grande Mãe, o ego começa a vê-la como negativa.

Neste processo, esse aspecto feminino-mãe, que vai se tornando masculino-filho, que inicia como luz, sabedoria plena, perde essa ‘lembrança’ e deixa de se conhecer-perceber como essa Mãe, começando a ter vagos vislumbres de uma dissociação, que separa Mãe e sua manifestação (aqui ainda como o filho infantil). Essa dissociação se torna mais evidente para, agora, o filho adolescente, assim deixando de percebê-la como envolvente, protetora, nutridora etc., ou seja, o aspecto positivo do feminino-mãe deixa de ser compreendido e aparece somente seu aspecto negativo, terrível, mortal, destrutivo (considerados como aspectos masculinos, porém não paternais, subordinados da e à Grande Mãe), mas fascinante. Assim, o que antes despertava prazer e amor, agora leva à dor e ao medo. O medo se dá porque o ego ainda não se encontra a altura e  onipotência da Grande Mãe, que tem tanto um imenso potencial de fecundação como de dissolução. Neste ponto ele pode, então, tanto sucumbir a ela (ao inconsciente), como pode decidir por conhecê-la melhor, e a si mesmo, para se desenvolver e se fortalecer e, assim, libertar-se dela, se estabelecendo como ego-conciente.  Quanto mais ele deseja se afastar dela, mais ela aparece-lhe como malévola.

O surgimento dos atributos negativos (agressivos e destruidores – mas voltados para o próprio ego) da Grande Mãe é justamente o que é mais tarde atribuído a um pai negativo, porém voltados para fora. A consciência/ego se diferencia ainda mais e esses atributos negativos masculinos da Grande Mãe (que são fatais para o ego) são, enfim, separados da Grande Mãe, que é divida também em mãe boa (atributos positivos-femininos da Grande Mãe: elementos fecundos e benéficos) e em seu parceiro masculino-destrutivo. Esse elemento masculino não enfrenta mais a onipotência da Grande Mãe, mas sim um elemento masculino hostil levando a uma autodefesa.

Na fase urobórica, quando o inconsciente é dominante, mas já diferenciado, como Grande Mãe, deve dar liberdade ao ego, a consciência, mas isso só pode acontecer sem atrito. Por causa desse atrito aparecem bloqueios da libido ou fixação numa fase, devido a resistência a mudanças, a algo novo, que somente são superados quando forças opostas tem o mesmo potencial.

(4ª  fase) – A separação dos Pais primordiais – luta com o dragão do inconsciente:

Nesta fase, o ego- filho não é mais dependente da Mãe urobórica (o inconsciente), mas se torna autônomo. Isso leva a dissolução definitiva da uroboros, a separação total dos Pais Primordiais que firma, enfim, o ego.

Com a separação do casal primordial, o não-dual dissocia-se e fica totalmente perceptível a dualidade. Neste momento há o surgimento da luz, quando o ego liberta-se, estabelecendo-se como centro da consciência, se auto-identificando como personalidade humana, percebendo a si mesmo e o mundo como algo separado, e todos os opostos agora estão divididos. Ele sofre uma dissociação e se vê desmembrado da origem (pais primordiais), é exposto à luz e ao espaço (entre os opostos) e como filho, nasce como personalidade com um ego firmado. Discriminando-se, nesta fase entre sujeito e objeto, ego e natureza, mente e corpo, o ego percebe a relação entre a vontade, o pensamento e o movimento, ou seja, percebe o poder potencial sobre o seu próprio corpo e sobre os outros objetos e a natureza. Assim ele passa de um estágio passivo, receptivo, para uma fase de atividade, movimento, que já se faz presente na própria passagem de um estágio para o outro, sendo iniciado por uma vontade de vencer um desafio, mas ainda tendo muita resistência a essa mudança. Por isso, emancipação da dominação do inconsciente, representada pelo assassínio do dragão, só é possível se o ego-herói reconhecer seu pai divino-espiritual.

Essa independência, representada pelo desmembramento do dragão, é a separação do pai-céu-deus e a mãe-terra (vaso-útero)-mundo. Porém, dentro do aspecto feminino da uroboros (a Mãe), contém o caráter masculino do negativo do pai-negativo e o próprio ego-herói. Vencendo o dragão pai-mãe, o ego se transforma de criado impotente em criador potente.

Apesar de representar uma unidade contendo os opostos pai-mãe, a uroboros, correspondente ao inconsciente e, enquanto potencialmente geradora do ego, é feminina para o ego, que é considerado a consciência, o masculino (tanto para um homem como para uma mulher). Este ego-masculino, o filho, o herói, corresponde, assim, a firmeza da vontade, a decisão, a atividade, conhecimento consciente e empreendedor, superar a natureza. Como dragão, a uroboros corresponde aqui ao aspecto Mãe Terrível, que também contém o aspecto masculino negativo, como vimos acima.

A morte e o desmembramento do dragão compreende, então, o assassinato dessa Grande MãeTerra-Terrível, que contém em si o pai-terrível, ao renascimento do ego e sua identificação com esse pai (porém renascido com nova percepção).

Nesta transição, em que há o fortalecimento da masculinidade e do ego, é representado, então, pelo assassinato dos caráteres negativos da mãe e do pai, pelo estabelecimento do ego/herói e também pelo renascimento ou auto-renascimento do herói sem a participação do feminino (oposto ao nascimento anterior sem o reconhecimento da participação do masculino).

O ego se liberta dessa mãe e pai negativos-inferiores e entra em contato com a criatividade, com a ‘parte superior de sua natureza dupla’. Porém, se o ego se identificar com sua parte superior (parte espiritual coletiva- neste momento uma espécie de superego) negando sua parte terrena, perdendo a consciência dual, perderá, da mesma forma, sua liberdade.

No início o ego é pré-individual, pré-consciente, por isso experimenta e reage ao ‘mundo’ de forma mais coletiva, mitológica, arquetípica (por imagens e símbolos), não objetiva, instintiva, receptiva e inconsciente, pois as projeções do self sobre o mundo são bem fortes. O desenvolvimento do ego é que o leva a reagir de forma mais individual, se dissolvem as participações inconscientes, há uma sistematização dos conteúdos da consciência, a vontade e a ação se fortalecem.

Porém tudo o que é mutável no inconsciente está relacionado com o masculino, como Logos-filho. “a imagem da mãe é menos condicionada pelo padrão cultural e temporal….embora,….uma figura arquetípica indefinida de um pai espiritual ou deus criador, trata-se de uma forma vazia; preenchem-na as figuras de pai, que variam de acordo com o desenvolvimento da cultura.”[13] O dinamismo, os valores e desenvolvimentos culturais, as leis, a consciência moral são ‘transmitidos’ e ‘mantidos’ através dessa figura paternal. Também relacionado ao aspecto dinâmico do inconsciente, tem-se aquele caráter que faz as transições entre os valores e estruturas velhas para os novos, que, da mesma forma tem uma representação masculina, o herói, um pai transpessoal que deseja a transformação do ‘mundo’.  Porém, é o aspecto paterno, o pai-terrível, que se incumbi da manutenção e destruição de qualquer possibilidade de mudança da velha ordem. Mesmo sendo figuras masculinas, esses elementos hostis, que estão associadas a este arquétipo do pai negativo (pai inferior), sempre estão na dependência da Grande mãe, ou seja, são instrumentos dela, estão sob seu domínio, mas ainda não é considerado um consorte da Grande mãe. Quando inicia a autoconcientização masculina (como ego) em que o elemento masculino percebe seu vínculo com este arquétipo masculino, “o antagonismo de luz e treva, até então cósmico, passa a ser experimentado como oposição divino-humana.”[14] Essa identificação de filiação pelo ego corresponde, assim, tanto uma assimilação da sombra (no aspecto negativo – seus impulsos destrutivos) como uma aliança com o self (no aspecto espiritual e imortal, masculino de si mesmo).

Na fase que há a separação dos Pais primordiais pelo herói, rompe a ambivalência do arquétipo, deixando de um lado a mãe negativa, destruidora, devoradora, meretriz, uma Lilith e do outro lado a mãe positiva, portadora de sabedoria, redentora, eternamente jovem, virgem-deusa que dá a luz (doa a vida) e promove o renascimento, alimenta, auxilia, cura; uma Sophia,  o ‘eterno feminino’. Assim também, o pai terrível é separado do pai-deus criador. Aí o herói se tona homem (ego-masculino): “a insuportável radiância branca da luz primordial é decomposta pelo prisma da consciência num multicolorido arco-íris de imagens, símbolos e aspectos.”[15]

Essa parte negativa, animal, sombria, é renegada, sendo excluída da consciência por ser algo que provoca medo da destruição, porém ela permanece viva no inconsciente, podendo vir a tona, com a mesma carga destruidora, se a consciência não aprender a assimilar e compreender os símbolos individuais. Este medo acontece porque o ego não consegue compreender a divindade primal amorfa e a natureza incognoscível é bivalente, pois está além dos opostos, de bem e mal, atrai e repele ao mesmo tempo e por isso impossibilita a experimentação dela por ele. Por isso, conforme o ego evolui, ele decompõe, fragmenta essa ‘divindade’ sem forma, que vemos na mitologia como diversos deuses independentes, ou seja, os aspectos da divindade primal são diferenciados em individualidades. Assim, cada aspecto, o ego consegue, agora, experimentar, ‘digerir’ (assimilado) e até mesmo manipular. Assim, com essa divisão ou decomposição da unidade em multiplicidades que são abstraídas através de sistemas de símbolos e arquétipos (expressões criativas da consciência), progressivamente, os conteúdos destes mesmos sistemas são totalmente assimilados pela consciência tornando-se uma qualidade para ela, porém se este conteúdo for muito complexo, pode acabar racionalizado, levando a uma visão unilateral (e por isso, não real) de tal aspecto.  Porém, destas formas, o ego consegue experimentar essas manifestações da unidade primordial. “o complexo do ego pode se associar a qualquer número de conteúdos diferenciados e, assim, ganhar experiência.”[16]

Isso é representado nas figuras mitológicas, a princípio, por deuses em formas animais, de plantas e até objetos, onde a prática da magia e ritual era estritamente precursora de todas as atividades humanas, devido ser ainda um estágio de não-diferenciação onde homem e natureza (e sagrado) eram ainda percebidos como uma unidade. Depois vieram os deuses antropormórficos sendo mais e mais estabelecidos com a forma comumente humana. Neste ponto a separação homem-natureza é firmada. Em seguida aparecem os contos de fada e, depois, os romances.

Por outro viés, percebemos neste desenvolvimento da consciência, como o aspecto masculino, a construção do mundo objetivo e mais ainda do mundo e consciência científica, como movimento de libertação do inconsciente, ou seja, do aspecto feminino, por isso esta ‘desmiticação’.

Este primeiro movimento, que ‘dá a luz’, que ‘cria’ o mundo e a consciência, acontece em meio a primeira real sensação de sofrimento, pois cessa o prazer anterior de estar contido e não-ser/ser o todo. …faz o ego se estabelecer para a ‘criação’ da consciência, que é sentida como um sacrifício, até mesmo gera um sentimento de culpa, mas também é sentido como algo necessário, então um sacro/sagrado ofício para a maturação do ego e mais pra frente para o estabelecimento do self e integração final. O paraíso e a eternidade acabam e surge a solidão, um sentimento de discordância, de perda, de morte, de impotência que vai aumentando quanto mais o ego se distancia de sua origem, porém o que antes era estar envolvido e passou a se perceber como dependente, quer a independência que mais a frente desejará a relação, o ‘estar relacionado com’.

É importante entendermos que os perigos percebidos pelo ego e a destrutibilidade do inconsciente acontecem nas fases iniciais onde o ego ainda é fraco e tem esta percepção limitada, mas conforme a consciência vai adquirindo saber, ela realiza sua união não só mais com o ego, mas principalmente com  a totalidade, por isso não mais percebe nenhum perigo de destruição.

Para a ‘superação da morte’ é necessário a transformação e unificação psíquicas, ou seja, a integração das partes da alma.

Nestas quatro fases encontramos o caráter elementar do feminino, o aspecto que tem como características a conservação de tudo aquilo a que deu origem, se coloca como proprietário o que nasceu de si, pode dar autonomia, mas sempre limitada, deixando seus rebentos dependentes e até submissos, também pode privar e repudiar. Possui o aspecto maternal, onde tem a função de conter tudo ainda dentro de si, mas é também positivo, pois tem a função de gerar, proteger, de prover e até libertar. No máximo de sua força negativa, pode sucumbir, aprisionar e tragar o ego, assim, para que haja equilíbrio deste caráter, ou seja, para que conteúdos inconscientes deixem de ficar ‘contidos’ e se libertem para a consciência, o ego deve ‘compreender’, através de uma fragmentação desse aspecto, que dividido em partes pode ser incorporado (assimilado, digerido) pela consciência. Quando isso acontece, toda a força, a libido que antes estava em poder deste aspecto, agora é disponível para o ego.

(5ª  fase)- A libertação da cativa – Anima-alma:

Na mitologia, assim como nos contos de fada, nas poesias e lendas, a meta dessa luta com o dragão é salvar, encontrar ou libertar ‘a cativa’, que está sob o poder deste monstro, que também pode ser representado por uma bruxa, madrasta ruim, feiticeiro e afins. A cativa também representa algo extremamente precioso como um tesouro. E, geralmente, após ou ao encontrar e salvar a cativa, o herói também encontra um tesouro real; diamantes, pérolas ouro, pedras preciosas, mas que são, para a mitologia primitiva, apenas símbolos de algo imaterial, assim como o são a água da vida, a pedra filosofal, anéis e lâmpadas mágicas.

A cativa pode ser interpretada, no nível objetivo, como uma mulher real e no nível subjetivo, como a própria alma. O ego masculino deve lutar com o dragão (o inconsciente inferior – mãe e pai negativos) para, libertando a ele e a ela, conquistar o tesouro e unir-se com a libertada. No nível subjetivo, o combate, a libertação e a união, são os fenômenos psíquicos experimentados pelo indivíduo. A luta com o dragão representa o estágio evolutivo inicial que corresponde ao desenvolvimento da masculinidade, ou seja, do ego, de onde emerge um herói. Já a libertação e a conquista da ‘princesa’ é um estágio de desenvolvimento mais avançado, que corresponde à separação do aspecto terrível do feminino (arquétipo do inconsciente subjugador), que o herói subjuga, do aspecto fecundo, benéfico do feminino (criatura consciente parceira – complementar), do qual ele se une. Este lado benéfico do feminino também é destacado quando, na batalha contra o monstro (inconsciente inferior – que contem a feminilidade e masculinidade inferior), o herói recebe ajuda ou até mesmo é guiado por uma outra figura feminina (como ele, egoconsciente – ego complementar, sua contraparte, sua alma despertada, a feminilidade superior), uma amiga ou irmã que corresponde ao aspecto fraternal, parceiro, assistencial, espiritual e até abnegado do feminino. Ela é auxiliadora e companheira do masculino-herói, ao contrário da imagem anterior da mãe terrível que hostiliza a masculinidade. Ao superar a mãe-terrível, o ego supera o ventre castrador e ao libertar dela a virgem cativa, ele acessa o ventre ego-feminino, receptivo e fecundo, e assim ele também se torna gerador e soberano de um novo reino, de uma nova ordem.

Ao ser auxiliado ou guiado por uma figura feminina ou libertar a cativa, inicia o estágio que o ego começa a aprender a se relacionar, como os outros, com o mundo, ou seja, abrir suas relações do âmbito familiar para o âmbito coletivo. Também inicia o seu relacionamento (consciente) com o mundo psíquico. Por causa da cativa, o ego progrediu no seu desenvolvimento e se identificou realmente como ego masculino e também despertou o aspecto feminino benéfico para a consciência. A cativa sempre representará, para o ego, os novos elementos despertados para sua consciência. Desta forma, este processo acontece, na puberdade, na segunda metade da vida e sempre que é necessária alguma transformação, ou reorientação da consciência. Mesmo que lute com o dragão, se ele não conquistar ou libertar a cativa (despertar a psique – a alma), não conquistará nada novo para sua consciência, ficará limitado aos velhos padrões e velho ‘mundo’ que não mais o satisfaz. Este ‘mundo’ ficará limitado numa pequenez das coisas triviais e mais individuais e ao poucos, por já perceber sua insignificância, leva a hostilidade e negação deste mundo e da vida.

Assim, aqui a Grande Mãe ‘aparecerá’ novamente (o que já havia acontecido na infância do ego, quando o indivíduo mergulhava no sono profundo ou quando se dá sua morte), porque o ego (e/ou a humanidade) amadureceu, bem experiente de si e do mundo e aí então, ela se revela como, por exemplo, “Sophia, a mãe ‘cheia de graça’, ou, derramando as suas riquezas na plenitude criadora da verdadeira produtividade, como a ‘Mãe de Tudo o que é Vivo’”[17].

(6ª fase) – A união com a Anima e o nascimento e estabelecimento do herói:

Nesta fase, ao libertar e unir-se a Anima, o ego renasce como herói. É o herói que confrontou a mãe urobórica, em seu aspecto negativo, que impulsionava-o ao inconsciente eterno, aos impulsos e paixões, que combateu também o aspecto masculino-pai negativo, o mantenedor de uma consciência já condicionada (e por isso também levada ao inconsciente coletivo) da disciplina, da autoridade e do poder executivo relacionados a um velho e ultrapassado sistema ou mundo (ou percepção racional da realidade). Por isso ele é aquele aspecto que tem a função de “portador do novo” e “destruidor do velho” (velhas idéias, velhos valores, leis e conceitos).

Além disso, como já foi dito, na mitologia, a cativa-anima está intimamente ligada com um tesouro ou é, ela mesma, este tesouro, que possui qualidades mágicas e/ou revelações poderosas e até a superação da morte.

Com a separação dos pais do mundo e a libertação da cativa, o aspecto negativo do feminino (mãe-terrível) é verdadeiramente destronado, passando por subordinada a ele. Somente ao tornar a anima sua consorte e por ela ser a guardiã do tesouro da alma (anima), feminino e masculino passam a ter a mesma potencialidade (o herói-ego torna-se pai – aqui o filho que renasce do pai).

Isso acontece pelo fato de que, ao libertar o elemento feminino, seu ventre fecundo, e tudo o que está oculto ao ego (adormecido em sua psique), o herói torna acessível o poder criador (antes cativo(a) na psique), liberta-se para todas as possibilidades criativas, fazendo do ego agora um ser criador. Este é o tesouro, sua alma que contém o poder da criação, o ‘poder autogerativo da alma’, o potencial de realização das imagens da alma.  Esta realização, na verdade, é uma projeção da alma, uma externalização dos conteúdos da psique. Mas ele somente se identificará com esse elemento criador, ou seja, encontrará o tesouro, se não tiver “redimido sua alma, sua contraparte feminina, que concebe e dá a luz. Este lado receptivo interior é, no nível subjetivo, a cativa resgatada, a virgem-mãe que concebe pelo divino vento-espírito e é, a um só tempo, a inspiradora, feiticeira, profetisa, amante e mãe, do mesmo modo como o herói é o amante e pai… a união da consciência egóica  – conhecedora e realizadora do mundo – do herói com o aspecto criador da alma resulta no verdadeiro nascimento como síntese de ambos.”[18]

Assim, nestas fases 5 e 6, a presença do elemento feminino é, sob o caráter de transformação, onde o conservadorismo da psique perde lugar para um dinamismo, um movimento de algo já existente na psique para mudanças que levem a uma grande transformação. Este aspecto também fora antes ‘dominado’ pelo caráter elementar, mas nestas fases, que o ego se torna mais forte, é libertado e fica à disposição e auxílio do ego. Este caráter de transformação está integrado com o elementar (com a função de nutrir, aquecer e ligado às mudanças regulares, como ciclos), mas sob o domínio deste, não há transformação qualitativa, e essas transformações ainda ocorrem no mundo inconsciente não tendo participação do ego. Quando é libertado, o caráter de transformação gera um movimento progressivo que impele o desenvolvimento, até mesmo se o ego o vê como negativo, por exemplo, quando experimenta a função de rejeição da anima. O ego também tem seu aspecto resistente (masculino-negativo), o caráter de transformação também será visto com um lado negativo criando inquietação, aflição, sentimento de desamparo, no decorrer do processo de desenvolvimento quando o ego está numa transição para uma nova fase de vida. Este medo do ego é também justificável pelo fato de, assim como no caráter elementar negativo que quando chega ao máximo de dominação leva a morte do corpo, no caráter de transformação negativo, se o ego também não tiver força, vontade e coragem suficiente, será dominado pela anima e poderá ser levado a loucura.

Desta forma, “a anima é o veículo por excelência do caráter de transformação. Ela é movimentadora e impulso à transformação, cuja fascinação impele, seduz e estimula o masculino a todo tipo de aventuras da alma e do espírito, da ação e da criação no mundo interior e exterior.”[19] A anima, no aspecto positivo, ampara, sacia, aquece e dá contentamento, de forma a levar o ego a transformação e sublimação, pois em oposição ao caráter elementar que está ligado ao nível corpóreo e material, a anima se relaciona com o nível anímico-espiritual.

Além do caráter de transformação, Neumann descreve o caráter de transformação espiritual que é o elemento que ‘inspira’ espiritualmente o ego, é “tudo o que há de mântico, religioso, profético, poético”[20]. Este caráter é o aspecto mais elevado do feminino onde se exprime o ‘clímax criativo’, conduzindo a função da visão, inspiração, sabedoria, intensificação da vida e da totalidade. Contém, desta forma, todos os métodos positivos que estimulam o inconsciente, que excitam, extasiam e inundam de sabedoria à consciência com os conteúdos, principalmente supraconscientes, portanto, elevando-a. Estes métodos inspiram a consciência e a personalidade a se ampliarem, a abarcarem a totalidade. Tais métodos incluem o dom como a profecia, a capacidade visionária, o mantismo superior. Estas qualidades do princípio feminino do caráter feminino estão relacionadas com o masculino espiritual, a uroboros paternal.

Há uma diferença importante a ser refletida aqui com relação aos gêneros. Relembrando, o inconsciente é entendido como feminino, seja homem ou mulher, e o ego, a consciência desperta no ego é masculino, tanto para um homem como para uma mulher. Porém a mulher vivencia o feminino em si mesmo, na consciência, na sua própria personalidade e corpo, mas o homem o vivencia através de sua psique, internamente, mas de forma indireta através de projeção, ou seja, através de um estímulo externo. O inverso vemos acontecer com o masculino (animus) na mulher. No caso do caráter de transformação mesmo enquanto esta ainda contido no elementar como depois de liberto, é muito acentuado, devido ela vivenciá-lo muito diretamente no ciclo menstrual, da gravidez e gestação, amamentação e climatério. Visto que este caráter ou tendência psíquica de transformação (a anima) é tão familiar à mulher, e por ter ele a função prospectiva, estimuladora e ser o elo numa transformação criativa superior para a constelação da personalidade total, colocam-na mais intima do processo de integração consciente, tendo assim, mais facilidade de entender e vivenciar esse processo, ou seja, possuindo menos resistência. Mas, para isso, ela precisa superar o caráter matriarcal em que privam o desenvolvimento do seu relacionamento com o ego e com o parceiro, só assim ela estará pronta para um relacionamento autêntico com o ego e com o companheiro, auxiliando-os no caminho em busca do tesouro do self.

(7ª fase) A luta com o dragão do mundo, o ego – o encontro do tesouro:

Nesta fase, que o ego já está estabelecido como centro da consciência, para continuar seu desenvolvimento, a personalidade precisa de uma grande transformação. Essa transformação será representada por uma nova luta, agora, com o dragão do mundo, ou seja, terá de vencer a própria centralização do ego na consciência e estabelecer o self como centro da psique.

O poder fecundo e a fundação da personalidade, a ascensão da libido pelo resgate da cativa, são requisitos necessários para combater o dragão do inconsciente. Essa libido é representada, no nível objetivo, pela energia espiritual que leva o herói à vitória e, subjetivo, pela criatividade voltada a arte. É uma libido transformada e orientada para a criatividade ascendente, para o espírito, para a transcendência. Desta maneira, temos que a personalidade se desenvolve de três formas. As duas primeiras estão baseadas na transformação do mundo pelo conflito, no ‘ato criador’, que só pode acontecer com a união com o aspecto feminino, como vimos. A primeira corresponde a extroversão; a adaptação e o desenvolvimento ‘do herói’ para fora, para o mundo e coisas, visa à ação que transforma o mundo, é o líder e o fundador do novo, assim o conflito aqui é com o exterior. Na segunda forma, a introversão, há a adaptação e desenvolvimento para o interior, para a ‘psique objetiva e para os arquétipos’, onde o herói porta uma nova cultura, é um messias, um redentor que objetiva sublimar os valores interiores, como sabedoria, fé etc; aqui o conflito do herói é com o interior.

A fase da luta com o dragão do mundo se verifica na terceira dimensão ou forma de desenvolvimento da personalidade. Nela também a meta é uma transformação, porém, agora, não mais do mundo, da coletividade, mas de sua própria personalidade; é a “centroversão, a tendência autoformadora ou individuadora, que se processa no interior da própria psique, independentemente das outras duas atitudes e do seu desenvolvimento.”[21] Esta forma de transformação preocupa-se em atingir uma espécie de estabilidade e indestrutibilidade, superando a morte e a dissolução da personalidade pelo inconsciente, perigo que corre tanto as outras duas formas de desenvolvimento.  Para isso o herói tem a ‘revelação do princípio espiritual’ que está separado do ‘princípio da vida e da natureza’. Este sentido de eternidade, de firmeza e de permanência, está ligado a uma fecundidade do espírito, um poder de renovação, de auto-renovação eterna, diferente da fertilidade da natureza viva. Para isso a sublimação, elevação e transformação do principio inferior de fertilidade para um superior, que corresponde a um princípio auto-gerador, de auto-renascimento. Assim a personalidade experimenta a morte e, ao mesmo tempo, a sua auto-geração, mas renascendo como um ser integrado. A consciência encontra o self que tem o ego ao seu redor, e inicia o processo de assimilação do inconsciente, enfim, deslocando o centro de gravidade do ego para o self.

(8ª  fase) – A concientização do self – integração final dos princípios opostos

O que podemos observar é que esse desenvolvimento é, na verdade, uma mudança de foco, de percepção, despertando assim a consciência da verdadeira realidade. Primeiramente, o ego experimenta o transpessoal-numinoso como algo externo a si mesmo, impessoal, projetando para um paraíso com seus deuses, passando para a projeção sobre o campo e ambiente pessoal (onde há o ego e as pessoas – eu e tu), só no final de sua ‘evolução’, levando a sua introjeção, uma incorporação como conteúdo psíquico pessoal, construindo a própria psique.

Esta incorporação das diversas áreas do inconsciente pela consciência compreende, como visto no capitulo anterior, a integração, além do próprio ego, também de outras instâncias da personalidade ou sistemas psíquicos parciais, como a sombra, a anima (ou o ânimos, para a mulher), o self e outros. Estas instâncias são como personalidades parciais, que são consteladas pelos processos que vão firmar o ego (que é também uma instância) que passa pela “fragmentação de arquétipos, exaustão de componentes emocionais, personalização secundária, deflação do inconsciente e racionalização.”[22]

A sombra refere-se aos elementos da personalidade interpretados como negativos pelo ego, influenciado pelos valores coletivos culturais. Na mitologia a vemos como uma função compensadora, com os primitivos, como a figura da ‘alma-arbusto’, ‘que cuidavam para que as árvores não crescessem até o céu’, uma espécie de ‘peso de chumbo’. Depois ela apareceu como os antagonistas do herói, às vezes um ‘irmão hostil’ e até mesmo como o diabo. Porém, assim como todas as demais instâncias, deve ser integrada. “No desenvolvimento psicológico, o self oculta a sombra, que é o ‘guardião do portão’, do limiar. O único caminho para o self passa pelo guardião. Por trás do aspecto escuro que a sombra representa está o aspecto da totalidade, e só a amizade com a sombra leva à amizade com o self ”[23].

O que nos interessa neste trabalho é entender, particularmente, a instância de transformação espiritual do feminino e suas representações/projeções, porém, como sua integração pelo ego, como estamos observando, faz parte de um processo, compreendemos a grande necessidade de ter explicado um pouco mais sobre este caminho que chega até ela.

Como vimos, o ego começa a se fixar, ou seja, a se perceber como uma instância, como indivíduo, quando se coloca em oposição a Uroboros, aos Pais primordiais, na visão mitológica. Sua primeira necessidade é combater o lado que ele percebe como mais perigoso para ele, que ele vê como devorador, terrível, que pode levá-lo a subjugação. Aí a figura da uroboros (a cobra que morde a própria calda) se transforma em dragão que deve ser combatido pelo ego para realmente se estabelecer como ego.  O dragão corresponde ao lado negativo a uroboros, que é também a figura da Grande Mãe. O que acontece aqui é que o ego ainda não tem consciência e poder nesta fase e por isso não consegue compreender exatamente, nem muito menos lidar com o poder dela, ou seja, não há uma relação de equilíbrio entre o ego (consciente, ainda fraco) e o inconsciente (uroboros). O que antes era algo de admiração, adoração, fascinação e entrega, nesta fase é algo que provoca medo e pavor de ser destruído. Por isso ele sente a necessidade de eliminá-la, como forma de poder existir de verdade. A forma de combatê-la é separá-la do Pai. Assim o Pai-espiritual é separado, pelo ego, da Mãe-terra-terrível que, como vimos, também contém em si o pai-terrível, ou seja, todo o lado ‘negativo’ dos Pais primordiais. Nesta fase ele inicia a conscientização do ego que é uma figura masculina, mas, para atingir esta meta de se objetivar, se concretizar, se estabelecer no mundo ele precisa liberar a cativa do poder da Grande-mãe. Ela é a princesa, a ‘anima’, a alma, o componente feminino que deve ser incluído para que se estabeleça definitivamente a personalidade do herói, ou seja, a estruturação do ego-masculino. Só libertando e conquistando esta contraparte feminina, o ego masculino pode ter o poder fecundador que tinham seus Pais primordiais e por isso levar sua cultura para fundar um novo reino e criar tudo que desejar.

O ego não podia ser parceiro da Grande-mãe enquanto não tivesse este poder e ele só pode ter este poder primeiramente eliminando o lado terrível dela e depois conquistando o aspecto feminino positivo, transformado, a anima. Esta instância feminina é o aspecto libertado do ‘peso esmagador’ e destruidor do dragão.

Como explicamos acima, observamos esse desmembramento do arquétipo da Grande Mãe, em mãe-terível e mãe-boa (ou virgem fecunda), como a parte do processo de desenvolvimento ou conscientização correspondente a ‘fragmentação do arquétipo’ e a introjeção (incorporação como conteúdo psíquico pessoal) do aspecto positivo (a jovem virgem a anima), porém ainda se encontra no inconsciente o aspecto da velha mãe destruidora.

A alma-anima, quando entra na esfera humana, ultrapassa o ego, assim como fazia a Grande-Mãe, mas a diferença é que, agora, essa imagem é accessível e assimilável a ele. Além disso, a anima amplia o ‘espaço’ do ego para o mundo exterior e interior, trazendo à experiência do ‘eu’, o ‘tu’, o relacionamento com o mundo, com os outros e também com o inconsciente, isto é, ajuda a promover a incorporação dos conteúdos ainda inconscientes.

A figura da anima como símbolo e arquétipo também traz em si tanto elementos de sabedoria como também de loucura-desintegração, porém se for realmente conscientizada pelo ego (dissolvida nele), a alma (a anima) é a ponte, o elo de relacionamento criativo (e não mais negativo e perigoso) com o inconsciente mais profundo, pois “a criatividade, em todas as suas formas, é sempre o produto de um encontro entre o mundo masculino da consciência do ego e o mundo feminino da alma.”[24]

A anima é bivalente no sentido de que, se não for conscientizada (conquistada e aceita) pelo ego, pode subjugá-lo novamente para o inconsciente (a Lilith) , mas caso contrário, por ser este elo, por haver esta força libidinal que o ego se liga a ela, a anima se colocará ao seu lado, como parceira, auxiliando-o com sua capacidade de prevenir contra os assaltos do inconsciente que ainda podem dissolve-lo e também inspirando-o (porque já é inspirada) para a conquista dos novos reinos – estágios de desenvolvimento – conscientizações (conquistando o inconsciente). Esta função da anima é sua representação superior como Sophia, Tara, Maria etc.

Neste processo de conquista do inconsciente (com a parceria-auxílio e inspiração da anima), o ego/masculino passa pela conquista do mundo exterior, mas tem também a capacidade de apreender, modificar e enfim assimilar o que foi ‘decomposto’ em partes, da totalidade, por ele mesmo, com sua mesma faculdade analítica e por fim, reconstruir a unidade, também com sua capacidade de síntese. Essa função de síntese deriva da capacidade de objetivação do mundo. Porém também esgotada a auto-objetivação, acompanhada por um alto nível de reflexão, auto-crítica e tendência à verdade, a consciência abandona a egocentração e se centra como self, integrando a personalidade (consciente e inconsciente, que se tornou se incorporou em consciente), integrando o mundo, restabelecendo a unidade da psique. A consciência que, antes, se centrava no ego que era transitório, por ser apenas uma instância parcial da personalidade, agora está centrada no self, conquista finalmente o objetivo de toda a jornada, a permanência, a imortalidade, representado pela comprovação da filiação divina do herói e por isso sua identificação divina, não só se firma a relação, a ligação do herói-filho com o Pai-espiritual, antes separado, no desmembramento do dragão, como a identificação do herói como próprio Pai- espiritual.

O importante observar, para o nosso estudo, é que esse poder de objetivação do ego derivada de seu aspecto criador, que está vinculado a instância anima da personalidade que se relaciona como ‘expressão do aspecto criador’, como ‘voz’ no interior da personalidade, como vimos, pois, desdobra ‘eu’ e ‘tu’; a idéia do ‘eu’ e do ‘coletivo’, do ‘novo’ a ser ‘criado’ pelo ego-herói e do velho e convencional ‘criado’ velho pai, que faz parte os valores da coletividade a serem reorientados pelo herói. Mas é através da alma-anima, como sacerdotisa, profetiza, Virgem-mãe que será concebido (pelo sopro-espírito) o Logos-espírito, o ‘verbo criador de Deus’.  Assim, a produtividade e criatividade do ego-herói dependem da alma-anima, se ela foi sucumbida pela Grande-mãe (pelo inconsciente), ou seja, se a atividade criadora é impedida pela mãe, a consciência perde o sistema masculino do ego (deflação da consciência), o ego deprime e perde a libido (que volta para o inconsciente), ação reflexa instantânea, pessimismo e enfraquecimento da vontade, ação e direção. Se, ao contrário, a anima é subjulgada pelo Espírito-Pai, o ego se identifica com Ele (inflação da consciência), a consciência fica sobrecarregada por libido e conteúdos espirituais que o ego não consegue assimilar, cria um ego megalogamico, otimismo exagerado, intensificação de manias, presunção (exagero da auto-estima e auto-responsabilidade), e ‘perda’ do (controle) corpo. Neste caso há duas formas de alienação em relação ao inconsciente, a primeira é a rigidez da consciência, que é a identificação do ego com a consciência, com a razão, pensamento, identificação do espírito com o intelecto, atrofia o vínculo com o inconsciente, reduzindo os conteúdos transpessoais a um nível pessoal e até científico, perdendo a função integradora, perda da emocionalidade e da afetividade, total falta de compreensão do inconsciente gerando indisposição em reagir a imagens psíquicas, e enfim ao egocentrismo, auto-obsessão, e também neurose. A segunda é a possessão, quando o ego é subjugado pelo aspecto ‘espiritual’ ficando totalmente dominado por uma idéia obsessiva e por isso limitada, mesmo que de ordem espiritual ou social-política ou por fatores ‘suprapessoais’, como dinheiro, poder, carreira, que assim como o aspecto inconsciente, também o consome, desconsiderando e desvalorizando a vida privada e psíquica, e o bem comum da sociedade. Assim, este aspecto que, antes, o ajudou a se libertar do inconsciente, agora, o impede de se desenvolver.

Isso demonstra a necessidade da compensação entre consciente e inconsciente, que só acontece com a conquista da anima, que pode impedir a regressão a Grande mãe-inconsciente, que o faz aliar-se a massa para obter dela a cultura, segurança e ponto de vista, ou fugir para o Grande Pai, isolando a consciência e inflando o ego com individualismo em excesso.

Desta forma, é que ego e anima, como sistemas psíquicos polarizados, após superadas as tendências de ambos, de dominação, isolação, separação e religação parcial, e conscientizando a tendência também equilibradora e harmônica, unem-se, colaborando um com o outro, associando suas capacidades para a meta final da individuação, integração na totalidade da psique, o self.

………………..

O processo de individuação geralmente inicia-se da segunda metade da vida. Após o estabelecimento do ego, há a ampliação da consciência dele por meio de auto-reflexão, passa pela fase auto-obsessiva, mas reestabelece sua função integradora, quando a personalidade, que se posicionava como centro da consciência egóica, passa a se colocar entre o ego e o self, levando o desenvolvimento para outra direção. A transformação que ocorre com a individuação, é uma mudança na qualidade da consciência. O foco no exterior, no mundo, nas coisas do mundo e do coletivo passa para o interior, para o self. O ego pessoal, que estava no centro da consciência, dominava a personalidade, que com a assimilação dos conteúdos suprapessoais, conscientiza-se do self, o centro da psique total. As instâncias separadas são integradas, mas agora também são incorporadas à consciência. Este processo, assim como da conscientização do ego, é também conflituoso e perigoso, podendo destruir a personalidade antes de atingir a meta, pois também há uma invasão de elementos emocionais. Isso acontece porque o herói destrói as barreiras de segurança que protegiam o ego, que não só libertam sua figura oposta (anima ou animus), mas também a figuras complexas e paradoxais, tanto inferiores como também superiores. A diferença aqui é que a personalidade dispõe de boa dose de consciência, já experimentou e já ganhou muitas batalhas, primeiro lutando contra o dragão do inconsciente, libertando a anima-alma e se estabelecendo como herói-ego que agora deve lutar com o dragão do mundo para se estabelecer como self, conscientizando suas experiências do mundo e de si mesmo. Chegando a este estágio de síntese, a tensão dos opostos; individual-coletivo, masculino-feminino, exterior–interior, consciente-incosnciente, eu-tu, espírito-vida, é superada e transcendida porque o indivíduo realizou-se a si mesmo como unidade-totalidade. A alquimia, que simboliza este estágio pela conquista da pedra filosofal, o rebis, também o representa pela imagem de ‘um’ hermafrodita coroado (o self) com um diamante resplandecente (a indestrutibilidade) em pé sobre um dragão (o inconsciente e o ego).

A representação e a integração do feminino transcendente

A representações do arquétipo feminino: imagens, símbolos do Grande Feminino

“Tudo pode assumir um significado simbólico: objetos naturais (pedras, plantas, animais, homens, vales, montanhas, lua ,sol vento, fogo) ou fabricados pelo homem (casa, barcos, carros) ou mesmo formas abstratas (números, triangulo, quadrado, círculo)… Todo o cosmo é um símbolo em potencial. Com a sua propensão para criar símbolos, o homem transforma, inconscientemente, objetos ou formas em símbolos (conferindo-lhes assim enorme importância psicológica) e lhes dá expressão, tanto na religião quanto nas artes visuais.”[25]

Vimos no capítulo anterior, como cada fase do desenvolvimento reflete e projeta imagens a ela relacionadas exprimindo toda uma variedade de conceitos e percepções abstratas.

Como nosso interesse é pelas imagens produzidas pelo principio feminino, destacamos neste capítulo as diversas figuras arquetípicas do feminino e seus símbolos, presentes em cada estágio do desenvolvimento da psique, que exercem, sobre o ego e a consciência, forte atração e fascinação.

Estas figuras, como vimos, são tanto positivas como negativas, de acordo com a percepção do ego. No geral o Grande Feminino rege toda a natureza; a terra e suas transformações, porém está ‘dividido’ em diversas funções e atributos, aspectos e caráteres.

Assim, temos como primeira imagem feminina a Mãe, a Mãe Bondosa, ou seja, o caráter elementar positivo do feminino, que caracteriza a mãe acolhedora, carinhosa, nutridora, geradora, protetora; ligada ao desenvolvimento, ao aquecimento; aos mistérios da natureza, da vegetação, das transformações cclicas (Fruta/Nascimento/Renascimento) etc. Neste aspecto feminino-materno, a tendência é a conservação em si de tudo o que gerou, um eterno pertencer e manter mais próximo, estável e imutável.

Suas primeiras formas foram impessoais e transpessoais, muitas vezes disformes, com ventre, seios, nádegas e coxas muito grandes representando a deusa da fertilidade. Várias vezes aparecem com genitálias destacadas, como na índia. Outras vezes, sentada na terra, simbolizando o sedentarismo, mas também com os braços erguidos evidenciando oração, invocação. Também é representada na forma de animais como a vaca e o porco, vaso-útero, a meia lua ou lua cheia, o planeta Vênus, os mares, as águas, as cavernas protetoras, montanhas, templos, portões de santuários, dolmens e locais sagrados. Estes símbolos referem-se ao princípio feminino por estarem também ligados ao renascimento e ao útero feminino, que também se apresenta como vaso. Este símbolo está relacionado com a função elementar feminina de preservação e proteção quando projetado, por exemplo, na caverna, tanto no contexto sagrado de templo como de casa, lar, através dos muros e pilares que demarcam determinados lugares sagrados e cidades. “Desde o início dos tempos, o local sagrado mais antigo é, provavelmente, o lugar onde a mulher dá a luz…. é dominado pela Grande Deusa e de onde são excluídos todos os homens – como ainda ocorria nos mistérios femininos posteriores.”[26]

Da mesma forma, o útero aparece também como boca que, como ‘útero superior’, “é o local de nascimento da respiração e da palavra, o Logos.”[27] As cavernas, o corpo-vaso e o portão como entrada do útero são, da mesma forma, símbolos mais primitivos da Grande Mãe. O portão alado e o dólmen como feminino estão também sempre associados ao renascimento através do útero. Estão relacionadas também, as atividades de proteger algo, como fazer cestos, trançar fibras, produzir vasos, vestimentas para o corpo e o próprio corpo como veste da alma, assim como as de preservação, ligadas a alimentação, a agricultura, estocagem de alimentos e finalmente ao fogo, com a função de aquecer (proteger do frio e de animais).

Na mitologia, a Grande Deusa é representada por Deméter e Artemis na Grécia, Ísis no Egito, Ishtar na babilônia, Kuwan-yin na china budista, a Shekinah judaica e outras

No nível em que o ego deseja a libertação, dissociação (do inconsciente) e fixação como ego-masculino consciência, essa imagem positiva se transforma em negativa e tudo que era estável, imutável do maternal se torna privação, e é percebido como Mãe Terrível, ligada aos aspectos de morte, esquartejamento, dor, sacrifício, extinção, representada pela mandíbula dilaceradora mortal, o abismo, a noite, o inferno, umbrais, subterrâneos, as profundezas aquáticas, a taça sacrificial que recolhe o sangue das vítimas, locais onde as coisas se decompõem, o sarcófago, o caixão, o túmulo como morada do mundo inferior. Neste aspecto, o crânio também é um símbolo muito presente até mesmo como acessório nas vestimentas das deusas, mas não é meramente uma imagem da morte. Ele também aparece no simbolismo alquímico, incluive por ser aquela parte do ser humano que não se desintegra como acontece com o corpo. É o ‘caput mortuum’, a caveira que sobra depois que o fogo purificador consumiu toda a matéria inútil. Para os alquimistas, o crânio é um recipiente onde se cozinha a matéria-prima. Também encontram-se aqui, como símbolos, alguns animais como abutre, corvo, mocho, a baleia, ursa, escorpião, caranguejo, a serpente, o dragão, a ‘bruxa velha’, a devoradora com dentes a mostra, comendo carne humana ou animal crua, escorrendo sangue, demoníaca, como a Kali indiana com crânios banhados de sangue, cabeças decepadas, Durga, Parvati, Tiamat babilônica, as egípcias Nut, Neckbet, as gregas Górgona, as Eríneas, Lâminas e Fúrias, Tisífone, Aleto, Belona, Hécate, Medusa, a Ixchel dos maias, Morgana, a deusa-feiticeira celta e outras deusas mortíferas do mundo inferior, as Valkirias guerreiras.

O ego, com sua evolução e a necessidade de maturidade é atraído pela imagem de transformação do feminino, que se for recebida positivamente, identificará a Anima positiva, que possui as funções mais dinâmicas da vida e da psique, que colocam em movimento aquilo que já existe, levando a uma transformação. Tais funções correspondem a sublimação, transformação (transmutação), visão, doação, afeição, sabedoria, êxtase superior, inspiração, atributos que conduzem o ego para uma ampliação e transformação (de foco) da consciência.

A Anima, como caráter transformador feminino e como veículo de transformação do masculino, é simbolizada como fogo e calor (e sangue). Na mulher encontramos, em sua vida consciente, atributos de transformação, simbolizados pelo sangue, tais como a menstruação, a defloração, a gravidez-parto e a transformação do sangue em leite (amamentação). O símbolo do fogo aqui está relacionado com a transformação do alimento, assim como o forno, voltando a idéia de vaso sagrado-útero (por exemplo do pão e de outros alimentos que surgem através da união de substâncias e alimentos e sua transformação pelo fogo e dentro de um forno). O forno, além de simbolizar o seio materno, refere-se também a metamorfose, pois é nele que algo da natureza se transforma e alimenta o homem. Atanor, o forno de fundição dos alquimistas, onde se realizam as transmutações da energia criadora, significa o ventre, assim como o alambique ou recipiente, representa o útero. A arca também simboliza o seio materno, associam-na ao vaso alquímico, ao recipiente da transmutação dos metais. “A mulher já se revela como Senhora da Transformação …….. A transformação da matéria e da vida está subordinada a ela …… Ela transforma a natureza em princípio mais elevado, de atuação espiritual, que ela é capaz de fazer surgir a partir do substrato natural da matéria.”[28]

As piras onde de queimam incensos, ervas, recipientes onde se cozem e fermentam os alimentos, assim como o calderão mágico no qual são produzidas as poções terapêuticas, inebriantes ou venenosas, também são símbolos de mudança, regeneração, ressurreição e iniciação. São, da mesma forma, associados ao vaso-útero sagrado que pode transformar o material em espiritual, o mortal no imortal. É o recipiente onde se cozinha o alimento da regeneração. O cálice, o Graal que acolhe o sangue dos mártires, é a taça mística da tradição celta e o recipiente (feminino) que contém “a substância da alma essencial da qual o espírito emana”. Para as culturas egípcia, hebraica e indiana o cálice está ligado ao coração, “pois o coração seria um cálice alquímico que elabora a vida”.

A igreja também é símbolo do ventre materno do self,assim como a taça que simboliza o recipiente-útero capaz de conter as qualidades procriativas do feminino.

Nestes símbolos, como objetos e como funções, percebe-se a idéia de um renascimento, transmutação de algo que era ou tinha uma função elementar e passou a ser e ter uma função superior. Isso é compreensível, pois estão “contidos na realidade psíquica todo-abrangente, no útero materno da noite ou do inconsciente. É possível que este renascimento possa ocorrer através de um sono na caverna noturna, da descida a um mundo subterrâneo em direção aos espíritos dos antepassados, de uma viagem pelo mar noturno ou, mesmo, de um torpor provocado por qualquer meio – de qualquer forma a retomada de um processo de renovação só é possível depois de morta a antiga personalidade.”

Essa ‘fertilidade’ que induz tanto ao nascimento, como ao processo de destruição de algo inferior ou elementar para que haja renovação, renascimento de algo superior, transcendente, também está relacionada com todo fenômeno e processo da sexualidade, a afetividade e a arte, que envolve a atitude receptiva do feminino em relação ao inconsciente. Porém, só mais a frente, voltaremos a isso quando explicarmos sobre as práticas espirituais de abertura de consciência que estão intimamente ligadas a esses processos.

A atuação ‘mágica’ do feminino é que “sublima a própria essência da vida ao irromper das profundezas daquelas forças, que permitam ao ser humano atingir uma nova dimensão do espírito e da luz, na embriaguês e no êxtase, na poesia e na inspiração, no manticismo e na sabedoria.” Newman explica que na perspectiva psicológica entendemos a existência desse atributo feminino porque a psique da mulher vai depender muito da ‘produtividade inconsciente’, assim ela tem a possibilidade de estar sempre ‘receptiva’ ao inconsciente e seus poderes, por isso está mais ‘relacionada’ com o todo, enquanto que para o homem está no desenvolvimento da ‘consciência masculina’, da mente racional, analítica que dissocia para entender o mundo e a realidade.

A Anima positiva é representada pelas virgens divinas, musas, como Atena, Àrtemis e Core na Grécia, Maat no Egito, Maria e Sophia ou Sabedoria.

Figura: Sophia

Caso o ego resista a essa transformação, ou se deixe enfraquecer diante dela, ele experimentará a Anima negativa, que caracteriza a impotência, a rejeição, o estupor, a privação, a aflição, a loucura, o encantamento e a sedução fatais, êxtase inferior. Da mesma forma, os símbolos das piras, dos calderões e potes mágicos existem aqui, porém as poções possuirão funções fatais, como venenos, substâncias tóxicas, drogas negativamente estimulantes que fazem perder a consciência;  o barco que levava antes a uma ampliação de consciência pode levar e deixar o indivíduo nas profundezas do inconsciente para sempre. Tais símbolos pertencem a esfera das ‘jovens bruxas’, das deusas Artarte, Afrodite e Circe, também Lilith, Lorelei, também as ninfas, elfos.

Finalmente, se o ego integrar estes arquétipos, ou seja, ultrapassar estes níveis, ele então se deparará com o ‘caráter feminino de transformação espiritual’, que integra e transcende o caráter elementar (mãe bondosa e mãe terrível) e o de transformação (anima positiva e negativa), atingindo o ‘espírito feminino’, unindo e em constante permuta entre as qualidades positivas e negativas. Esse caráter corresponde, “não mais as antigas funções, mas atributos dos processos das transformações espirituais; ‘símbolos abstratos’ que representam uma mescla do não-conceitual/simbólico com elementos que podem ser apreendidos de modo abstrato”.[29] Isso faz com que a consciência possa, finalmente, ser transcendida.

Assim, é exatamente neste estágio de desenvolvimento humano que encontramos as representações do princípio feminino que desejamos abordar neste estudo.

Este estágio é o mais elevado em espiritualidade, a auto-evolução da natureza feminina, estabelece-se como ‘matriz do espírito’ e ‘eterno feminino’ que “transcende todas as encarnações terrenas, todas as mulheres e todos os símbolos individuais”.[30] Por isso o feminino aqui é simbolizado pelo coração como fonte de sabedoria, sabedoria do insight – vinda do feminino que aparece em Sophia, Kwan-yin, Tara e Prajnaparamita budistas, Shakti indiana e, até mesmo, a Kali, no aspecto positivo, na índia, concebida como Vajrayogini no budismo tibetano. Mas é importante entender que este caráter espiritual elevado do feminino, vai além da representação como deusa, já podendo ser percebido como conceito, por exemplo como Chokmah, na cabala.

Outros símbolos são a barca e o lótus. A barca é o transporte da alma, carregador de almas, um rito de passagem para o outro mundo ou a imortalidade, também é o meio transporte para o inconsciente. A barca que transporta do mundo exterior para o interior, pode aparecer simbolizando a Igreja, numa associação com a mãe, com o feminino, sua imagem também corresponde à imagem de uma das fases da lua.

O lótus (padma) simboliza a Sabedoria, a Consciência Iluminada, pois como esta origina-se da mente impura, do lodo da paixão e da ignorância; a flor de lótus nasce do lodo e da escuridão. Este símbolo representa, muitas vezes, divindades femininas indianas e budistas.

Do mesmo modo, o iluminado transcende a percepção deste mundo, mesmo que encarnado na ‘profundidade sombria’ deste mundo, sua consciência ‘está erguida na totalidade da luz’.

O feminino transcendente ou Grande Feminino corresponde tanto à representação do principio feminino da iluminação, ou seja, da mente desperta, o estágio final de desenvolvimento ou despertar, o vazio que dá origem a todos os fenômenos e a sabedoria, ou energia de sabedoria[31], como a representação do potencial para despertar este estado-estágio de consciência.[32]


[1] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 26

[2] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 26

[3] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 28

[4] As chamadas cinco ‘coberturas de maya’: Parte (criação limitada da consciência que causa eficácia limitada), Vidya (onisciência reduzida da consciência, causando conhecimento finito), Raga (inteireza rompida da consciência que causa desejo por experiências parciais), Kala (eternidade da consciência reduzida ã existência temporal), Niyati (rompimento da independência e impregnação da consciência, causando a limitação da cusa, especo e forma).

[5] Os cinco princípios ou elementos são: o vazio ou espaço (akasha) produzido pelo elemento sutil do som, a motilidade (ar ou vento: vayu) do elemento sutil do tato, a formação (fogo – Agni ou tejas), produzido pelo elemento sutil da visão a liquidez (agua: apo ou apas) do elemento sutil do paladar e a solidez (terra: Prithivi) produzida a partir do elemento sutil do olfato.

[6] Feuerstein, George.Tantra. , p 78 a 85

[7] Jung, o Segredo da Flor de Ouro, 92

[8] Berg, Rabi Yehuda. O Poder da Cabala, p 69

[9] Berg, Rabi Yehuda. O Poder da Cabala, p 76

[10] Berg, Rabi Yehuda. O Poder da Cabala, p 83

[11] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 33

[12] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 53

[13] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 136

[14] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 141

[15] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 233

[16] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 237

[17] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 32

[18] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 161, 162

[19] Neumann, Erich, A Grande Mãe, p 41

[20] Neumann, Erich, A Grande Mãe, p 69

[21] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 166

[22] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 251

[23] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 252

[24] Neumann, Erich. A História da Origem da Consciência, p 254

[25] Jung, O homem e seus símbolos, pp232

[26] Neumann, Erich, A Grande Mãe, p 142

[27] Neumann, Erich, A Grande Mãe, p 148

[28] Neumann, Erich, A Grande Mãe, p 252

[29] Neumann, Erich, A Grande Mãe, p 75

[30] Neumann, Erich, A Grande Mãe, p 291

[31] Fremantele, Francesca. Vazio Luminoso, p 106 – 68 – 82 –

[32] Fremantele, Francesca. Vazio Luminoso, p128

-boh#�V:0� x�� e-height: normal’>[22] Jung, Estudos Alquímicos, pp 319

[23] Jung, Aion, pp 170

[24] Jung, Aion, pp 186,

[25] Wilber, Ken. O Projeto Atman pp ????

[26] Ver no capitulo 2 a explicação de estados e estágios de consciência

[27] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 294, 127

[28] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 143

[29] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 167

[30] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 167

[31] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 170

[32] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 183

[33]Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 301

[34] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 295-296

[35] Jung, C.G. Aion, pp 1 a 6

[36] Wilber, Ken. O Projeto Atman PP 104 a 106

[37] Wilber, Ken. O Projeto Atman PP 106

[38] Wilber, Ken. O Projeto Atman PP 104 a 114

[39] Wilber, Ken. O Projeto Atman PP 115

[40] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 15 e  ????

[41] Wilber, Ken. Uma Teoria de Tudo, PP39

[42] Wilber, Ken. Uma Teoria de Tudo, Pg 43 a 45

[43] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 169 a 171

[44] Wilber, Ken. Uma Teoria de Tudo, PP53 e 54

[45] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 62

[46] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP

[47] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 55 e 59

[48] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 59, 60

[49] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 44

[50] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP63 a 68 e Espiritualidade Integral PP 88 e 114 e Wilber, Ken. Uma Teoria de Tudo, Pg 53

[51] Wilber, Ken. Uma Teoria de Tudo, 19 a 24

[52] Wilber, Ken. Uma Teoria de Tudo,pg 35

[53] Ken. Uma Teoria de Tudo, PP25

[54] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 31

[55] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 32

[56] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 101

[57] Wilber, Ken. Espiritualidade Integral PP 104

[58] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 152 e nota na 287

[59] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 30

[60] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 118 a 124

[61] Wilber, Ken. Uma Teoria de Tudo, PP31

[62] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 84 PP127

[64] Wilber, Ken. Uma Teoria de Tudo, PP52

[65] Wilber, Ken. Psicologia Integral  PP 255

[66] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 147 e Espiritualidade Integral pp133

[67] Ken. Uma Teoria de Tudo, PP134 e 136

[68] Wilber, Ken. O Projeto Atman pp 55 a 60

[69] Wilber, Ken. O Projeto Atman pp 101 a 103

[70] Wilber, Ken. O Projeto Atman pp 122 e 123

[71] Wilber, Ken. O Projeto Atman PP 129 a 133

[72] Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo pp 53

[73] Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo pp 16, 17

[74] Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo pp 91 e 92

[75] Jung, O homem e seus símbolos, pp67 e 76

[76] Jung, O homem e seus símbolos, PP 78

[77] Jung, ,Psicologia do inconsciente PP 61 e 62

[78] Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo pp 49

[79] Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo PP 122

[80] Jung, Estudos Alquímicos, PP 239

[81] Jung, O homem e seus símbolos, pp79

[82] Jung, ,Psicologia do inconsciente PP57

[83] Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo pp 23

[84] Jung, ,Psicologia do inconsciente PP 69

[85] Jung, ,Psicologia do inconsciente PP70

[86] Jung, ,Psicologia do inconsciente PP85 e 86

[87] Neumann, Erich, A Grande Mãe, p 32

[88] Jung, ,Psicologia do inconsciente PP 89

[89] Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo PP 75

[90] Dicionário Etmológico – Nova Fronteira da língua portuguesa – Antônio Geraldo da Cunha p   (ver tbem pg)

[91] Jung, ,Psicologia e Alquimia PP 295

[92] Jung, ,Estudos Alquimicos PP 294

[93] Jung, ,Estudos Alquimicos PP 339

[94]Kast, Verena, A dinâmica dos símbolos, São Paulo, Loyola, 1997, p.19

[95] Jung, Obras completas, vol 2 727 e 821

[96] Edinger, Edward F. Ego e Arquétipo PP 156-158

[97] Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo pp 282

[98] Jung, O homem e seus símbolos, pp93

[99] Eliade, Mircea. Imagens e Símbolos…pp (em proj atman wilber pp74)

[100] Jung, O homem e seus símbolos, pp99

[101] JACOBI, Jolande. Complexo, Arquétipo e Símbolo. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 1995. Pp 10

[102] Whitmont, Edward C. Retorno da Deusa, pp23

[103] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 120

[104] Wilber, Ken. Psicologia Integral PP 270

[105] Wilber, Ken. O olho do espírito PP 221

[106] Wilber, Ken. O olho do espírito PP293, 294