Sara La Kali ou Santa Sara – O Sagrado Feminino e o Sincretismo religioso

Sarah la Kali

Fonte: http://www.embaixadacigana.org.br/saint.html#sarah

Sarah La Kali

A primeira menção histórica a respeito de Sarah la Kali foi encontrada em um texto escrito em 1521, por Vincent Philippon intitulado, A Lenda das Santas-Marias. Suas páginas manuscritas encontram-se agora na biblioteca de Arles. Nesta versão da lenda, Sarah vivia em Camargue, sul da França (sem mais detalhes) entre ciganos do clã Sinte.

De acordo com outra narrativa, Sarah era de nascença uma egípcia e foi para a Palestina como escrava de José de Arimatéia. Este, que no ano 50 d.C empreendeu fuga da perseguição romana aos cristãos, viajando através do mar em uma pequena embarcação acompanhado de Maria Jacobina (irmã de Maria de Nazaré), Maria Salomé(mãe dos apóstolos João e Tiago) e Maria (mãe de Jesus). Eles se depararam com uma tempestade severa e segundo essa versão da lenda, Sarah guiou a todos, por meio da leitura das estrelas, para a costa distante, no sul da França.

Em outra lenda que nós, ciganos Sinte, acreditamos muito mais …Sarah la Kali foi uma cigana que estava acampada na costa ao sul da França, quando o barco em questão se aproximou. E o contato entre ela e as “Marias vindas do mar” se deu da seguinte forma: de acordo com Franz Ville, autor do livro (Tziganes, editado em Bruxelas 1956): “Uma de nossa gente foi quem recebeu a primeira revelação e essa pessoa foi Sarah la Kali. Nascida em uma família cigana, Sarah la Kali foi a pessoa principal de seu clã em Rhone (antigo nome da atual cidade de Saint Marie de La Mer). Ela foi escolhida como sacerdotisa-iniciada nos elementos Terra, Água e Ar e é por esse motivo que se vestia de preto, daí seu nome Sarah la Kali (em Romanês, Kali significa preto). Conhecedora de todos os segredos a ela transmitidos, e diga-se de passagem, eram muitos os segredos; pois nós, ciganos, a esse tempo já conhecíamos os fundamentos de várias religiões e dominávamos várias formas de ocultismo. Nessa época, uma vez por ano, os ciganos Sinte colocavam em seus ombros a estátua de ISHTAR (a filha da Lua) e entravam no mar para receber suas bençãos (fato que atualmente ocorre com a imagem de Sarah la Kali).

Ainda há registros nas tradições orais em Romani desta parte da lenda: A primeira menção histórica a respeito de Sarah la Kali foi encontrada em um texto escrito em 1521, por Vincent Philippon intitulado, A Lenda das Santas-Marias. Suas páginas manuscritas encontram-se agora na biblioteca de Arles. Nesta versão da lenda, Sarah vivia em Camargue, sul da França (sem mais detalhes) entre ciganos do clã Sinte. De acordo com outra narrativa, Sarah era de nascença uma egípcia e foi para a Palestina como escrava de José de Arimatéia. Este, que no ano 50 d.C empreendeu fuga da perseguição romana aos cristãos, viajando através do mar em uma pequena embarcação acompanhado de Maria Jacobina (irmã de Maria de Nazaré), Maria Salomé (mãe dos apóstolos João e Tiago) e Maria (mãe de Jesus). Eles se depararam com uma tempestade severa e segundo essa versão da lenda, Sarah guiou a todos, por meio da leitura das estrelas, para a costa distante, no sul da França.

” Um dia Sarah la Kali teve visões que a informaram: as “Marias” que estiveram presentes à morte de Jesus viriam para sua região e que ela as ajudaria. Sarah viu-as chegando em um barco. O mar estava bravio e ameaçava afundar a embarcação. Sarah lançou seu lenço nas ondas e, usando o mesmo, caminhou sobre as águas ajudando as “Marias” a desembarcarem em segurança.

A bem da verdade Saintes-Maries-de-la-Mer , ou “Santas Marias do Mar”, é uma pequena vila de pescadores localizada no centro-sul da costa do mediterrâneo, França, na região de Camargue de Bouches-du-Rhone. Escavações arqueológicas e lendas locais indicam que a região tem sido venerada como um lugar sagrado por uma sucessão de culturas, incluindo os celtas, romanos, cristãos e, mais recentemente, nós, os ciganos. Uma vez que era o local sagrado da deusa tríplice celta – ligada às águas (a deusa tríplice é o cerne das religiões pagãs e está presente em diversas culturas). Na cultura celta, há várias deusas que assumem esse papel de deusa tríplice, trazendo em si as três fases da vida: nascimento, crescimento e morte. São representadas por uma mulher que traz em si a adolescente, a mãe e a anciã. O três ou a tríade, antes mesmo de ser usado no Cristianismo, era a base da magia e religião celta, pois se baseava não só nas três fases da vida, mas também nas estações (que no início eram contadas como três – sendo que uma dependia da Terra, outra da Água e a última do Ar ). Em época celta a cidade possuía uma deusa da primavera conhecida pelo nome de Oppidum Priscum Ra. A adoração a deusa tríplice da água foi substituída por templos romanos dedicados a Artemis, Cibele e Ísis. Já em 542 dC, a cidade era conhecida como Saintes-Maries-de-la-Barca, em 1838, recebeu seu nome atual: o de “Saint Maries de la mer”. Fontes históricas mencionam uma igreja do século 9 construída na vila, mas muito pouco se sabe sobre a história da cidade antes do século 14, por causa de sua localização remota. Não se sabe exatamente quando e por que a igreja da vila se tornou o local mais sagrado dos ciganos “manushes” , algum tempo após sua chegada na Europa no início dos anos 1400.

Outros aspectos de Sarah la Kali:
Quando nas lendas aparece a referência de que ela foi escolhida como sacerdotisa iniciada, na realidade isso equivale a dizer: ela era a personificação de uma Shakti. E dentro dos conceitos atávicos que trouxemos do norte da Índia, como personificação de uma Shakti, Sarah la Kali exercia a proteção dos oprimidos e perseguidos e é por isso que alguns clãs ciganos peregrinam rumo ao “santuário” de Sarah la Kali, em Saint Marie de la Mer, na França.

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Sara La Kali – A Transformação da Deusa Hindu em Santa

Fonte: http://www.teiadethea.org/

      Na Idade Média havia uma lenda difundida em Provença, que, após a crucificação (em torno do ano 42), Lázaro, suas irmãs Maria Madalena e Martha, junto com Maria Jacobé, Maria Salomé e Maximiano foram colocados pelos soldados romanos num barco sem velas, nem remos, para assim perecerem no mar. Depois do barco ser levado pelos ventos, apesar da falta de equipamento e comida, a embarcação conseguiu resistir às tempestades e aportou numa praia no Sul da França, próxima ao desaguar do rio Ron, num vilarejo conhecido atualmente como Saintes Maries-de-la-Mer. Também segundo a lenda, cada um dos viajantes seguiu rumos diferentes. Maria Madalena teria ido para Saint Baume, onde se refugiou em uma gruta no alto da montanha, de muito difícil acesso e lá passou o resto da sua vida, envolta apenas pelos seus longos cabelos e sendo alimentada duas vezes por dia pelo mana trazido pelos anjos. A gruta foi e continua sendo lugar de peregrinação, pois a partir do século 5 os monges cristãos tentaram melhorar o árduo caminho; como reis participavam das peregrinações, para sua facilidade foi construído o ”chemin de rois”, percorrido a cavalo.
A grande descoberta cristã teria sido em 1279, quando os supostos ossos de Maria Madalena foram encontrados perto de Saint Maximim. Um documento datado de 710 (que depois desapareceu), encontrado pelo conde Charles de Provence depois de um aviso num sonho, teria confirmado a autenticidade do achado. Charles gastou sua fortuna para construir a Basílica de Saint Maximim, onde é guardado o suposto crânio de Maria Madalena num relicário. Esta igreja era um ponto importante no culto dos cátaros (que reverenciavam Madalena como sendo a esposa de Jesus) e ainda é muito visitada atualmente.
As Marias – Jacobé e Salomé – permaneceram na área, curando e ajudando doentes e crianças. Martha foi para Tarascon, onde domou um monstro que saia das águas de Ron para devorar pessoas e animais. Lázaro foi para Marselha onde cristianizou a população e se tornou o primeiro bispo cristão. Em outra versão, Maria Jacobé, Maria Salomé e Maria Madalena teriam supostamente ensinado o cristianismo à população local. Isto é apenas um mito, já que oficialmente o cristianismo passou a existir na Europa muito tempo depois da morte destas Marias.
No barco dos refugiados cristãos veio também uma enigmática jovem com pele escura – Sara – descrita de várias maneiras pelos historiadores: ora como uma empregada egípcia das Marias (que estava junto delas quando encontraram o túmulo vazio de Jesus), ora como uma princesa cigana acampada nas areias de Camargue, que teria ajudado o barco atracar, ora como uma sacerdotisa egípcia refugiada na Líbia, que teria vindo junto com as Marias e guiado o barco, orientando-se pelas estrelas. A mais recente versão divulgada pelos escritores Margaret Starbird (A mulher com o jarro de alabastro), Michael Baigeant&Richard Leigh (Holy Grail, Holy Blood) e Dan Brown (O Código da Vinci) a apresenta como filha de Jesus e Maria Madalena, crença partilhada pelos cátaros e motivo da sua dizimação pelo Vaticano. No dogma cristão, afirma-se que Maria Madalena teria vivido e morrido em Éfeso e suas relíquias foram levadas para Constantinopla, apesar de faltar qualquer evidência histórica ou arqueológica para esta suposição.
Existem vários erros e anacronismos entre a chegada do barco no primeiro século, a lenda das Três Marias datada do século 13 e a citação cristã da presença de Sara no século 16, descrita como coletora de esmolas para auxiliar as Marias. Este fato fez pressupor que fosse cigana e por isso ela teria sido adotada como padroeira dos ciganos. Outra lenda diz que Sara, a egípcia, espalhou seu manto sobre a água quando o barco estava em perigo de afundar-se, permitindo assim todos chegassem a terra com segurança. Uma lenda popular Romaniafirma que Sara era a “rainha” de um grupo cigano na área aonde chegaram as três Marias, que foi batizada por elas e aprendeu o cristianismo. Na atual igreja de Saintes Maries dedicada ao Saint Michel, existem estátuas das duas Marias “brancas” e uma da negra Sara, atualmente aceita como santa cristã.
Na Idade Média, os monges cristãos procuraram achar relíquias milagrosas atribuídas às santas e em Saintes Maries-de-la-Mer foram achados vários crânios humanos arrumados em forma de cruz e os esqueletos de três mulheres Junto dos ossos tinha uma pedra polida de mármore chamada de “travesseiro das santas”, sobre a qual estavam os crânios das mulheres e um altar de pedra. A descoberta serviu como prova (mesmo sem ter uma verificação científica posterior) de que os corpos pertenciam às  três Marias. O rei René d’Anjou e sua rainha Isabelle ordenaram o enterro dos ossos num oratório construído em 1448. (A cripta em que se encontra atualmente a estátua da Santa Sara data desta época). Numa cerimônia na presença do casal real, as relíquias foram colocadas acima do altar da igreja de Saint Michel. Durante a revolução francesa, os relicários foram destruídos, mas os ossos salvos pelos padres e depois colocados em novos relicários, que começaram a ser levados em procissão a partir de 1862. Com o passar do tempo, Maria Madalena foi esquecida pela Igreja e desapareceu do trio de Marias. Atualmente, a versão oficial e moderna da Igreja é que apenas as duas Marias (Jacobé e Salomé) chegaram em um barco da Palestina com sua serva Sara, que agora é chamada de Santa Sara, apesar de que oficialmente não seja santificada ou beatificada pela igreja, sendo mantido somente seu culto local.
O encontro dos três esqueletos explica a presença das Marias, mas nenhuma prova da existência de Sara foi achada. É a sua estátua negra – e não suas relíquias – o ponto central no seu culto e que é levada anualmente em procissão pelos ciganos. A presença da estátua negra na cripta da igreja permanece misteriosa e sem nenhuma explicação oferecida pelas autoridades da igreja. A estátua atual é substituta de uma estátua anterior, que por sua vez substituiu uma mais antiga. Acredita-se que ela represente de fato uma Madona Negra ou que ela seria a versão cristianizada da deusa hindu Kali, cultuada pelos ciganos e do cujo culto faz parte a procissão para o mar.
Embora existam muitas Virgens e Santas Negras nos países cristãos do mundo todo, destaca-se como um enigma a imagem negra adorada pelos ciganos em Saintes Maries-de-la-Mer em Camargue. A verdadeira origem desta imagem é perdida nas brumas do tempo antigo, entretanto não há dúvidas da existência de imagens de Deusas Negras muito antes da existência do cristianismo. De acordo com alguns pesquisadores e confirmado pelas escavações arqueológicas, a atual Saintes Maries de-la-Mer foi venerada como um local sacro desde a pré-história, originalmente pelos celtas. Conhecida como Oppidum Priscum Ra tinha uma fonte sagrada onde eram cultuadas as deusas tríplices Matres, substituídas depois pelos cultos romanos. Há evidências que no primeiro século d.C., ainda havia templos de Ártemis, Cibele e Ísis nas redondezas e o local era conhecido como Ratis, que significa “jangada”. Posteriormente o termo foi aplicado à própria igreja cristã, que tem formato de barco e por muito tempo foi conhecida como Notre Dame de Ratis (“Nossa Senhora da Jangada”). Com o advento do cristianismo e da prática comum de transformar templos pagãos em igrejas e deuses em santos, provavelmente algum culto local e seu templo dedicado a deusas tríplices como as Matres fora assimilado ao mito das Três Marias.
Muitas lendas foram criadas e continuam aparecendo novas versões místicas ou romanceadas, sem existir uma confirmação oficial apresentada pela Igreja Católica Romana, para explicar as lendas folclóricas dos grupos ciganos, que frequentam a peregrinação anual ao santuário de Saintes Maries-de-la-Mer nos dias 24 e 25 de maio. A maioria destes romeiros vindos da França, Espanha, Hungria, dos países do leste europeu e de outras partes do mundo, chegam alguns dias antes da festa e acampam próximo ao santuário, onde trocam notícias, arranjam casamentos, oferecem leituras de mão aos turistas, dançam e tocam músicas para homenagear Santa Sara Kali.  Uma vigília noturna precede o dia 24 de maio, feita na cripta onde a imagem negra de Santa Sara fica alojada.
Existe muito nonsense escrito sobre os ciganos que foram difamados, repelidos, perseguidos e mortos ao longo dos séculos no mundo todo. Atualmente, através de pesquisas linguísticas e genéticas, conhece-se a sua origem: eles saíram do Norte da Índia em torno de 900, chegaram à Pérsia em 950 e no Egito em 1230. Entraram na  Europa central através de Bulgária e Romênia (que talvez explique sua autodenominação de Romi ou Romani) no final do século 14 e até meados do século 15 haviam se espalhado tão longe como Espanha e tão a leste como a Polónia, Ucrânia e Lituânia. Sua primeira aparição documentada na França foi em Paris em 1415. Os gitanos, nome usado para definir os ciganos na Europa (devido à sua proveniência do Egito) são um povo misterioso e que jamais partilhou suas crenças religiosas. Supõe-se que eles cultuam Sara como a reminiscência de uma antiga deusa pagã, possivelmente Kali ou uma Madona Negra. São mencionados como estando presentes na peregrinação e procissão de Saintes Maries de-la-Mer tão cedo quanto meados do século 15.
Qualquer tentativa de definir quem realmente é Sara La Kali ou para explicar como ela passou a ser adorada pelos ciganos no contexto do dogma oficial, está condenada ao fracasso, a menos que a questão seja abordada partindo da visão da cultura cigana. No passado, a maioria dos ciganos que participavam da peregrinação anual foram os Sinti franceses, outros grupos Rom da  França e os Calés da Espanha. Durante a era comunista, os ciganos eram impedidos de viajarem para realizarem a peregrinação, levando ao crescente número atual de peregrinos. Além deles, existem milhares de turistas que apenas vão ao local para admirar a festa colorida, tirar fotos e filmar. Atualmente, o número de antropólogos, cineastas amadores e profissionais, curiosos, grupos místicos, turistas e outros não-ciganos geralmente supera a presença numérica dos ciganos.
Até recentemente acreditava-se que a adoração a Sara Kali, a Santa Deusa Negra dos ciganos era única em Saintes Maries-de-la-Mer. Entretanto, uma pesquisa realizada por Ronald Lee com os refugiados ciganos da República Checa, Eslováquia, Polónia e dos países dos Balcãs revelou o fato pouco conhecido que outras Virgens Negras são adoradas por ciganos. Este culto existe no centro e leste da Europa, nas Américas (Canadá, Estados Unidos, México, Brasil) e os ciganos desses países realizam rituais similares. Esses rituais consistem em levar a estátua da Madona Negra sobre uma plataforma adornada com flores para a água mais próxima, seja mar, lago, rio ou mesmo uma lagoa de água límpida. A plataforma é, então, abaixada para tocar a água, enquanto a multidão joga flores e entoa louvações.
As cerimônias de Saintes Maries de-la-Mer, conhecidas como Le pelerinage des Gitans (“peregrinação dos ciganos”) são bastante elaboradas e atraem uma multidão de fieis e curiosos, que aumenta em quarenta vezes a população local da pequena cidade. Na tarde do dia 24 de maio, as estátuas das duas Marias são retiradas dos seus nichos na parte de cima da igreja de Saint Michel. As pessoas elevam as crianças e tentam tocar as estátuas antes de serem colocadas no chão para obterem suas bênçãos. Em seguida, a estátua negra de Santa Sara é retirada da cripta da parte de baixo da igreja, onde centenas de velas de cera enfumaçam o ambiente. No pedestal da santa amontoam-se roupas de doentes à espera de curas e inúmeros pedidos e oferendas de colares, pulseiras, echarpes, notas de dinheiro e flores. A estátua da Santa é vestida com novas e brilhantes roupas e é levada em procissão sobre uma plataforma adornada com flores, e carregada por ciganos. A procissão liderada pelos padres segue pelas ruas estreitas escoltada por guardiões cavalgando cavalos brancos. A multidão de fieis e turistas acompanha com gritos de “Vive Sainte Sara” até a praia, onde a plataforma é abaixada pelos guardiões até tocar a água, enquanto a multidão joga flores, se benze com a água do mar e continua gritando e pedindo bênçãos da santa. Depois, a procissão volta para a igreja onde a multidão continua a veneração, formando filas para acender velas e passar na frente da estátua, colocando pedidos e presentes aos seus pés, lenços no seu pescoço ou beijando o rosto da santa. No dia seguinte, as estátuas das duas Marias são colocadas em um pequeno barco enfeitado com flores e levadas em procissão até o mar, enquanto um número menor de pessoas grita ”Vive les Saintes Maries”. Esta parte do festival tem uma nuance provençal local, sendo associada com participações artísticas dos ciganos. Para os ciganos que vêm de vários lugares dos países europeus este festival oferece uma oportunidade de renovar laços familiares, contratos sociais, negociar casamentos, conduzir negócios e batizar crianças na igreja das duas Marias e de Santa Sara. Algo pouco divulgado é o terceiro dia do festival, quando touros brancos são conduzidos pelas ruas, enquanto as pessoas tentam desviá-los do seu rumo. Esta parte é uma reminiscência do culto do deus Mithra anterior ao cristianismo.
Estudiosos indianos e pessoas que testemunharam a cerimônia cigana, bem como os observadores ocidentais que estão familiarizados com os costumes religiosos hindus, identificaram esta cerimônia com a Durga Pooja da Índia. No idioma Romani, Kali Sara significa “Sara Negra” e na Índia, a Deusa Kali é conhecida sob seus aspectos de como Kali, Durga e Sara. Kali é o feminino de kala = escuro ou preto e a deusa Kali era descrita como uma deusa de pele negra, fato que explica a identificação de Sara com Kali e a Madona Negra. Como os hindus, os ciganos praticam o Shakhtismo, isto é, a adoração de deusas/energias femininas. Em outras palavras, os ciganos que frequentam a peregrinação a Saintes Maries-de-la-Mer na França e em outras cerimônias semelhantes honram divindades femininas negras, pois na verdade continuam a adorar Kali / Durga / Sara, sua Deusa original indiana. Do seu aspecto inicial violento, atemorizador e aniquilador, Kali evoluiu para uma Deusa Mãe benevolente, sendo reverenciada como Bhavatarini, a “redentora do universo”.  Os ciganos reverenciam Sara-la-Kali como a Mãe Protetora, que vai curar doenças, perdoar erros e pecados, trazer boa sorte e fertilidade nas uniões e conceder o sucesso em empreendimentos comerciais.

Em uma viagem de estudos que fiz no Sul da França em 2011, participei dos dois dias da comemoração. O calor, a multidão amontoada nas estreitas ruas ou ao longo da praia, as pessoas se empurrando para ter uma melhor visão para as fotos ou se desviar dos cavalos, não favoreciam uma real conexão com o objetivo da procissão. Os padres com batinas brancas e chapéus de palha falavam entre si ou no telefone e algumas devotas gritavam “Vive Sainte Sara” sem parar. Na volta da praia, as pessoas corriam tentando chegar mais cedo à igreja para passar na frente da estátua e deixar seus pedidos e presentes. Consegui me recolher e criar uma conexão com a antiga egrégora do local me sentando perto de uma moldura de vidro no chão, embaixo da qual sabia que havia a antiga fonte sagrada das deusas celtas e de Ísis. Foi durante estes momentos que senti fortemente a permanência secular da energia sacra das Madonas Negras, manifestada na figura de Sara La Kali, cujo culto atual, independentemente do aspecto folclórico e da adaptação cristã, mobiliza a adoração e veneração de multidões para Aquela que foi, é e continua sendo a Nossa Negra Mãe.