Sobre o Útero – O Cálice Sagrado (pela abordagem do xamanismo tolteca contemporaneo)

Sobre o Útero – O Cálice Sagrado (pela abordagem do xamanismo tolteca contemporaneo)

 

Citações dos 15 livros da obra completa de Castaneda – Xamanismo tolteca – sobre esse tema fascinante que é O Útero.
“Um dia, quando estávamos nas montanhas da terra dele, escutei o vento pela primeira vez. Ele foi diretamente ao meu ventre. Eu estava deitada em cima de uma pedra chata e o vento rodopiava em volta de mim. Eu já o tinha visto aquele dia, rodopiando em volta dos arbustos, mas dessa vez ele passou sobre mim e parou. Parecia um pássaro que tivesse pousado na minha barriga. O Nagual mandara que eu tirasse toda a minha roupa; eu estava completamente nua mas não estava com frio porque o vento me esquentava.
– Teve medo, Dona Soledad?
– Medo? Fiquei apavorada. O vento parecia ter vida; lambeu me da cabeça aos pés. E depois entrou em meu corpo todo. Eu parecia um balão, e o vento saía pelos meu ouvidos e minha boca e outras partes que não quero mencionar. Pensei morrer, e teria fugido, se o Nagual não se me segurasse presa à pedra. Ele falou comigo em meu ouvido e me acalmou. Fiquei deitada ali, quieta, deixando o vento fazer o que quisesse comigo. Foi aí que o vento me disse o que fazer.
– O que fazer com o quê?
– Com minha vida, minhas coisas, meu quarto, meus sentimentos. A principio não estava claro. Eu pensei que era eu, pensando. O Nagual disse que todos nós fazemos isso. Mas quando ficamos quietos, percebemos que é outra coisa nos contando as coisas.
– Você ouviu uma voz?
– Não. O vento move-se dentro do corpo de uma mulher. O Nagual diz que é assim porque as mulheres têm útero. Uma vez dentro do útero, o vento nos pega e diz para fazermos as coisas. Quanto mais sossegada e descontraída a mulher, melhores os resultados. Pode-se dizer que de repente a mulher começa a fazer coisas que não sabia absolutamente fazer.
– Desde aquele dia, o vento passou a vir a mim todo o tempo. Falava-me em meu útero e me dizia tudo o que eu queria saber. O Nagual viu desde o principio que eu era o vento norte. Os outros ventos nunca me falaram assim, se bem que eu tivesse aprendido a distingui-los.
– Quantos tipos de vento existem?
– Há quatro ventos, assim como há quatro direções. Isso, claro, é para os feiticeiros e o que fazem os feiticeiros. Quatro para eles é um número de poder. O primeiro vento é a brisa, a manhã. Traz a esperança e a luz: é o arauto do dia. Vem e vai e entra em tudo. Às vezes é suave e passa despercebido; outras vezes é insistente e aborrecido.
“Outro vento é o vento duro, ou quente ou frio, ou ambos. Um vento do meio-dia. Soprando cheio de energia mas também cheio de cegueira. Passa através das portas e derruba paredes. Um feiticeiro tem de ser muito forte para lidar com o vento duro.
“Depois temos o vento frio da tarde. Triste e difícil. Um vento que nunca quer nos deixar em paz. Esfria a pessoa a faz chorar. O Nagual disse que ele tem tal profundidade, porem, que vale bem a pena procurá-lo.
“E por fim há o vento quente. Aquece e protege e envolve tudo.
É um vento da noite para os feiticeiros. O poder dele anda junto com as trevas.
“São esses os quatro ventos. Também estão ligados aos quatro pontos cardeais. A brisa é o leste. O vento frio é o oeste. O vento duro é o norte. O quente é o sul.
Os quatro ventos também têm personalidades. A brisa é alegre, insinuante e astuta. O vento frio é temperamental, melancólico e sempre pensativo. O vento quente é feliz, largado e saltitante. O vento duro é enérgico, dominador e impaciente.
– O Nagual me disse que os quatro ventos são mulheres, e por isso que as guerreiras os procuram. Os ventos e as mulheres são iguais. É por isso também que as mulheres são melhores do que os homens. Eu diria que as mulheres aprendem mais depressa quando se agarram a seu vento especifico.
– Como é que a mulher pode saber qual o seu vento especifico? – Se a mulher sossega e não fica falando consigo, o vento dela a apanhará, assim.
Ela fez um gesto de quem agarra. – Ela tem de ficar deitada nua?
– Isso ajuda.
O Segundo Circulo do Poder, pág. 34

Ela vacilou um instante, e depois ficou ali calada, olhando para a casa. Pôs as mãos juntas logo abaixo do umbigo. Depois virou-se de frente para o vale e repetiu o mesmo movimento com as mãos.
Eu sabia o que ela estava fazendo. Estava-se despedindo da sua casa e daqueles morros temíveis que a rodeavam.
Dom Juan me ensinara aquele gesto de despedida anos atrás. Frisara que era um gesto extremamente poderoso e que o guerreiro tinha de usá-lo com parcimônia. Eu tinha tido muito poucas ocasiões de usá-lo, pessoalmente.
O gesto de despedida que a Gorda estava fazendo era uma variação do que Dom Juan me ensinara. Ele dissera que as mãos ficavam postas, como na oração, ou delicadamente ou muito depressa, produzindo até um barulho de palmas. De qualquer das duas maneiras, o propósito de cruzar as mãos era apreender o sentimento que o guerreiro não queria deixar para trás. Assim que as mãos se fechavam e capturavam aquele sentimento, eram levadas com muita força para o meio do peito, no nível do coração. Ali o sentimento tornava-se um punhal e o guerreiro se apunhalava com ele, como se segurasse o punhal com ambas as mãos.
Dom Juan me dissera que o guerreiro dizia adeus dessa maneira apenas quando tinha motivos para achar que poderia não voltar.
A despedida da Gorda empolgou-me.
– Você está-se despedindo? – perguntei, curioso.
– Estou – disse ela, secamente.
– Não põe as mãos no peito? – perguntei.
– Os homens é que fazem isso. As mulheres têm úteros. Guardam os sentimentos ali.
– Você não diz adeus assim só quando não vai voltar? – perguntei.
– É possível que eu não volte – respondeu ela. – Vou com você.
Tive um acesso de uma tristeza inexplicável, inexplicável no sentido de que eu não conhecia aquela mulher em absoluto. Sobre ela eu só tinha dúvidas e desconfianças. Mas, ao olhar em seus olhos úmidos, tive uma sensação de parentesco total com ela. Abrandei-me. A minha raiva desaparecera e cedera lugar a uma estranha tristeza. Olhei em volta e vi que aqueles morros redondos, misteriosos e enormes estavam-me dilacerando.
– Aqueles morros estão vivos – disse ela, interpretando os meus pensamentos.
Virei-me para ela e disse-lhe que tanto o lugar como as mulheres me haviam afetado num plano muito profundo, um plano que eu normalmente nem podia conceber. Eu não sabia o que era mais arrasador, se o lugar ou as mulheres. Os assaltos das mulheres tinham sido diretos e aterradores, mas o efeito daqueles morros era uma apreensão constante e aflitiva, um desejo de fugir deles. Quando eu disse isso à Gorda, ela disse que eu tinha razão em julgar assim o efeito daquele lugar, e que o Nagual as deixara ali devido àquele efeito e que eu não devia culpar ninguém pelo que acontecera, pois o próprio Nagual dera ordens àquelas mulheres para tentarem liquidar-me.
O Segundo Circulo do Poder, pág. 86

– Vocês todas podem passar a sonhar quando quiserem? perguntei.
– Não – respondeu a Gorda. – Sonhar exige muito poder. Nenhuma de nós tem tanto poder assim. O motivo por que as irmãzinhas tiveram de rolar pelo chão tantas vezes foi porque, ao rolarem, a terra lhes dá energia. Talvez você também possa lembrar-se de tê-las visto como seres luminosos obtendo energia da luz da terra. O Nagual disse que o melhor meio de se conseguir energia, naturalmente, é deixar o Sol entrar pelos seus olhos, especialmente o olho esquerdo.
Eu lhe disse que não sabia nada sobre isso, e ela descreveu um processo que Dom Juan lhes havia ensinado. Enquanto ela falava eu me lembrei que Dom Juan também me ensinara o mesmo processo. Consistia em mexer a cabeça devagar de um lado para outro, enquanto eu apanhava a luz do sol com o meu olho esquerdo meio fechado. Ele dissera que a gente podia usar não só o sol, mas também qualquer tipo de luz que brilhasse nos olhos.
A Gorda disse que o Nagual recomendara que elas amarrassem os xales abaixo da cintura para proteger os quadris, quando rolassem.
Comentei que Dom Juan nunca me falara de rolar. Ela disse que só as mulheres podem rolar porque tinham útero e a energia entrava diretamente em seu útero; rolando, distribuíam essa energia pelo resto do corpo. A fim do homem receber energia, ele tinha de ficar de costas, com os joelhos dobrados de modo que as solas dos pés se tocassem. Os braços tinham de estender-se lateralmente, com os antebraços erguidos verticalmente, e os dedos em garra em posição de pé.
– Há anos que sonhamos esses sonhos – disse Lídia. – Esses sonhos são os melhores que temos, pois a nossa atenção está completa. Nos outros sonhos que temos a nossa atenção ainda está fraca.
A Gorda disse que guardar as imagens dos sonhos era uma arte tolteca. Depois de anos de uma prática intensa cada uma delas era capaz de executar um feito em qualquer sonho. Lídia podia andar sobre qualquer coisa. Rosa podia pendurar-se de qualquer coisa, Josefina podia esconder-se atrás de qualquer coisa e ela podia voar. Mas eram apenas principiantes, aprendizes da arte. Tinham uma atenção total apenas para uma atividade. Ela acrescentou que Genaro era o mestre de “sonhar” e podia virar as coisas e ter atenção para tantas atividades quantas temos em nossa vida diária e que para ele os dois domínios da atenção tinham o mesmo valor.
O Segundo Circulo do Poder, pág. 200

A explicação do Dom Juan sobre redistribuição era que os seres humanos, percebidos como conglomerados de campos de energia, são unidades energéticas lacradas que têm fronteiras definidas que não permitem a entrada ou a saída de energia. Conseqüentemente, a energia existente dentro daquele conglomerado de campos de energia é tudo com que cada indivíduo humano pode contar.
– A tendência natural dos seres humanos – dizia ele – é afastar a energia dos centros de vitalidade que estão localizados, do lado direito do corpo, bem na borda da caixa torácica na área do fígado e da vesícula biliar; do lado esquerdo do corpo, novamente na borda da caixa torácica na área do pâncreas e do baço; nas costas, logo atrás de outros dois centros, em torno dos rins e logo acima deles, na área das glândulas supra-renais; na base do pescoço, no local em V formado pelo esterno e pela clavícula; e em torno do útero e dos ovários nas mulheres.
– Dom Juan, como os seres humanos afastam essa energia? perguntei.
– Preocupando-se – respondeu ele. – Sucumbindo à tensão da vida cotidiana. A coação das ações diárias cobra o seu preço ao corpo.
– E o que acontece com essa energia, Dom Juan? – perguntei de novo.
– Ela se junta na periferia da bola luminosa – disse ele -, às vezes ao ponto de formar um sedimento grosso como uma casca. Os passes mágicos estão relacionados com o ser humano total, como um corpo físico e como um conglomerado de campos de energia. Eles agitam a energia acumulada na bola luminosa e a devolvem para o próprio corpo físico. Os passes mágicos envolvem tanto o próprio corpo como uma entidade física que sofre a dispersão da energia quanto o corpo como uma entidade energética que é capaz de redistribuir aquela energia dispersada.
Passes mágicos, pág. 24

A Série para o Útero
De acordo com Dom Juan Matus, um dos interesses mais específicos dos xamãs que viviam no México nos tempos antigos era o que eles chamavam de a liberação do útero. Ele explicava que a liberação do útero acarretava o despertar das suas funções secundárias e que, já que a função primária do útero, sob circunstâncias normais, era a reprodução, esses feiticeiros estavam interessados unicamente naquilo que consideravam ser sua função secundária: a evolução. Para eles, no caso do útero, a evolução era o despertar e a plena utilização da capacidade do útero de processar o conhecimento direto, isto é, a possibilidade de apreender dados sensoriais e interpretá-los diretamente, sem a ajuda de processos de interpretação com os quais estamos familiarizados.
Para os xamãs, o momento em que os praticantes são transformados de seres que estão socializados para reproduzir em seres capazes de evoluir é o momento em que eles se tornam conscientes da energia visível como ela flui no universo. Na opinião dos xamãs, as fêmeas podem ver a energia diretamente com mais facilidade que os machos devido ao efeito dos seus úteros. Também é opinião deles que, sob condições normais, independentemente da facilidade que as mulheres têm, é quase impossível para as mulheres ou para os homens se tornarem deliberadamente conscientes de que podem ver a energia diretamente. A razão para essa incapacidade é algo que os xamãs consideram ser uma caricatura: o fato de não existir ninguém para ressaltar aos seres. humanos que é natural eles verem a energia diretamente.
Os xamãs afirmam que as mulheres, porque têm um útero, são tão versáteis, tão individualistas em sua capacidade de ver a energia diretamente que essa realização, que deveria ser um triunfo do espírito humano, não é reconhecida. As mulheres nunca estão conscientes de suas capacidades. A esse respeito os homens são mais competentes. Já que para eles é mais difícil ver a energia diretamente, quando realizam essa façanha dão valor a ela. Conseqüentemente, os feiticeiros do sexo masculino foram os que estabeleceram os parâmetros de perceber a energia diretamente e os que tentaram descrever o fenômeno.
– A premissa básica da feitiçaria descoberta pelos xamãs da minha linhagem, que viveram no México nos tempos antigos – disse-me um dia Dom Juan -, é a de que nós somos percebedores. A totalidade do corpo humano é um instrumento de percepção. Entretanto, a predominância em nós do visual dá à percepção a disposição global dos olhos. De acordo com os antigos feiticeiros, essa disposição é simplesmente a herança de um estado puramente predatório.
“O esforço dos antigos feiticeiros, que permaneceu até os nossos dias, era engendrado no sentido de se colocarem além do domínio do olho predador. Eles concebiam o olho predador como sendo visual por excelência e o domínio além do olho predador como sendo o domínio da percepção pura, que não é visualmente orientada.”
Em outra ocasião ele falou que o pomo de discórdia para os feiticeiros do antigo México era o fato de as mulheres, que têm a estrutura orgânica, o útero, que poderia facilitar a entrada delas no domínio da percepção pura, não terem nenhum interesse em utilizá-lo. Tais xamãs viam isso como o paradoxo da mulher: ter poder infinito à sua disposição e nenhum interesse em obter acesso a ele. Contudo Dom Juan não tinha nenhuma dúvida de que essa falta de desejo em fazer alguma coisa não era natural; era aprendida.
O objetivo dos passes mágicos para o útero é proporcionar às praticantes femininas da Tensegridade uma noção, que precisa ser mais que um estímulo intelectual agradável, da possibilidade de cancelar o efeito dessa nociva socialização que torna as mulheres indiferentes. No entanto, cabe uma advertência: Dom Juan Matus aconselhava suas discípulas a procederem com grande cautela ao praticarem estes passes mágicos. Os passes mágicos para o útero são passes que promovem o despertar das funções secundárias do útero e dos ovários, e essas funções secundárias são a apreensão de dados sensoriais e a sua interpretação.
Dom Juan chamava o útero de a caixa da percepção. Ele estava tão convencido quanto os outros feiticeiros da sua linhagem de que o útero e os ovários, se forem afastados do ciclo reprodutivo, podem se tornar ferramentas de percepção e, na verdade, o epicentro da evolução. Ele considerava que o primeiro passo da evolução é a aceitação da premissa de que os seres humanos são percebedores. Não era redundância da parte dele insistir incessantemente que isso precisa ser feito antes de qualquer outra coisa.
– Nós já sabemos que somos percebedores. O que mais podemos ser? – dizia eu em protesto todas as vezes em que ele insistia.
– Pense a respeito disso! – respondia ele todas as vezes em que eu protestava. – A percepção só desempenha uma função mínima em nossas vidas e, no entanto, a única coisa que somos de fato é percebedores. Os seres humanos apreendem livremente a energia e a transformam em dados sensoriais. Depois interpretam esses dados sensoriais no mundo da vida cotidiana. É a essa interpretação que chamamos de percepção.
“Como você já sabe, os feiticeiros do antigo México estavam convencidos de que a interpretação ocorria em um ponto de luminosidade intensa, o ponto de aglutinação, que eles descobriram quando viram o corpo humano como um conglomerado de campos de energia que se assemelhava a uma esfera de luminosidade. A vantagem das mulheres é a sua capacidade de transferirem a função de interpretação do ponto de aglutinação para o útero. O resultado dessa transferência de função é algo que não pode ser comentado, não porque seja algo proibido, mas porque é indescritível.”
“O útero fica verdadeiramente em um estado caótico de alvoroço devido a essa capacidade velada que existe, em remissão, desde o momento do nascimento até a morte, mas que nunca é utilizada. Essa função de interpretação nunca cessa de agir e, no entanto, nunca tem sido elevada ao nível da consciência plena.”
A convicção de Dom Juan era que os xamãs do antigo México, através dos seus passes mágicos, tinham elevado entre as suas praticantes femininas a capacidade interpretativa do útero ao nível da consciência e que, fazendo isso, tinham instituído uma mudança evolucionária entre elas, isto é, tinham transformado o útero de um órgão de reprodução em uma ferramenta de evolução.
No mundo do homem moderno, evolução é definida como a capacidade de diferentes espécies se modificarem através de processos de seleção natural ou de transmissão de características, até que possam reproduzir em sua descendência, de modo bem-sucedido, as mudanças ocorridas em si mesmas.
A teoria evolucionista, que perdurou até os nossos dias desde a época em que foi formulada há uns cem anos, diz que a origem e a perpetuação de uma nova espécie de animal ou planta é ocasionada pelo processo de seleção natural, que favorece a sobrevivência de indivíduos cujas características os tornam mais bem adaptados ao seu ambiente, e que a evolução é ocasionada pela interação de três princípios: primeiro a hereditariedade, a força conservadora que transmite formas orgânicas similares de uma geração para outra; segundo as variações, as diferenças presentes em todas as formas de vida; terceiro a luta pela existência, que determina que variações conferem vantagens em um determinado ambiente. Esse último princípio deu origem à expressão ainda em uso corrente: “a sobrevivência do mais apto”.
A evolução, como teoria, tem brechas enormes; deixa um tremendo espaço para a dúvida. Na melhor das hipóteses, é um processo em aberto para o qual os cientistas têm criado esquemas classificatórios; têm criado taxinomias para satisfazerem os seus corações. Mas o fato é que essa é uma teoria cheia de furos. O que sabemos a respeito da evolução não nos diz o que é a evolução.
Dom Juan Matus acreditava que a evolução era o produto de intentar a um nível muito profundo. No caso dos feiticeiros, esse nível profundo era indicado pelo que ele denominava de silêncio interior.
– Por exemplo – dizia ele quando estava explicando o fenômeno -, os feiticeiros têm certeza de que os dinossauros voavam porque intentaram voar. Porém, o que é muito difícil de entender, e mais ainda de aceitar, é que as asas sejam a única solução para voar. Neste caso, a solução dos dinossauros. Contudo essa não é a única solução possível. É a única que está disponível a nós por imitação. Os nossos aviões estão voando com asas imitando os dinossauros, talvez porque voar nunca mais tenha sido intentado novamente desde a época dos dinossauros.
Talvez as asas tenham sido adotadas porque eram a solução mais fácil.
Dom Juan era da opinião de que, se fôssemos intentar isso agora, não haveria nenhuma maneira de saber que outras opções para voar estariam disponíveis além das asas. Ele insistia que, porque o intento é infinito, não havia nenhuma maneira lógica pela qual a mente, seguindo processos de dedução ou indução, pudesse calcular ou determinar quais poderiam ser essa opções.
Os passes mágicos da série para o útero são extremamente potentes e devem ser praticados com muita parcimônia. Em tempos antigos os homens eram impedidos de executá-los. Em tempos mais recentes tem havido uma tendência entre os feiticeiros de tornar tais passes mágicos mais genéricos, surgindo a possibilidade de eles serem úteis também para os homens. Entretanto essa possibilidade é muito delicada e requer um emprego cuidadoso, grande concentração e determinação.
Os praticantes masculinos da Tensegridade que ensinam os passes mágicos, devido ao seu potente efeito, optaram por praticá-los esfregando a energia que eles geram só ligeiramente na área dos seus próprios órgãos genitais. Essa medida provou ser suficiente para proporcionar um choque benéfico sem quaisquer efeitos profundos ou deletérios.
Dom Juan explicava que os feiticeiros da sua linhagem, em um determinado momento, permitiram que os homens praticassem esses passes mágicos devido à possibilidade de que a energia produzida por eles despertaria a função secundária dos órgãos sexuais masculinos. Ele dizia que aqueles feiticeiros consideravam que a função secundária dos órgãos sexuais masculinos não é absolutamente semelhante à do útero; nenhuma interpretação de dados sensoriais pode acontecer porque os órgãos sexuais masculinos pendem na parte exterior da cavidade do corpo. Devido a tais circunstâncias especiais, a conclusão deles foi a de que a função secundária dos órgãos masculinos era algo que eles denominaram de suporte evolucionário: uma espécie de trampolim que catapulta os homens para realizarem façanhas extraordinárias o que os feiticeiros do antigo México chamavam de intento inflexível ou propósito lúcido e concentração.
A série para o útero é dividida em quatro seções que correspondem às três discípulas femininas de Dom Juan Matus: Taisha Abelar, Florinda Donner-Grau e Carol Tiggs, e a Blue Scout que nasceu no mundo de Dom Juan. A primeira é composta de três passes mágicos pertencentes a Taisha Abelar; a segunda é composta de um passe mágico diretamente relacionado a Florinda Donner-Grau; a terceira, de três passes mágicos que têm relação exclusiva com Carol Tiggs, e a quarta, de cinco passes mágicos que pertencem a Blue Scout. Os passes mágicos de cada seção são pertinentes a um tipo específico de indivíduo. A Tensegridade tornou-os capazes de serem utilizados por qualquer pessoa, embora eles ainda se inclinem na direção do tipo de pessoa que cada uma daquelas mulheres é. Passes Mágicos, pág. 80 a 84

Dom Juan explicava que esses enormes centros de vitalidade estavam localizados em seis áreas do corpo. Ele os enumerava segundo a importância que os xamãs lhes concederam. O primeiro, na área do fígado e da vesícula biliar; o segundo, na área do pâncreas e do baço; o terceiro, na área dos rins e das glândulas supra-renais; e o quarto, no ponto côncavo na base do pescoço na parte frontal do corpo. O quinto, ao redor do útero, e o sexto, no topo da cabeça.
De acordo com o que Dom Juan dizia, o quinto centro, pertinente apenas às mulheres, tinha um tipo especial de energia que dava aos feiticeiros a impressão de liquidez. Era uma característica que somente algumas mulheres tinham. Parecia servir como um filtro natural que peneirava as influências supérfluas.
Passes Mágicos, pág. 100

– As mulheres são sonhadoras insuperáveis – garantiu Esperanza. – As mulheres são extremamente práticas. A fim de manter um sonho, é preciso ser prático, porque o sonho deve pertencer a aspectos práticos da pessoa. O sonho preferido da minha mestra era sonhar-se falcão. Outro era sonhar-se coruja. Assim, dependendo da hora do dia, ela podia sonhar ser um ou outro, e como estava sonhando desperta, era real e completamente falcão ou coruja.
Havia no tom e nos olhos dela tal convicção e sinceridade que fiquei completamente subjugada. Não duvidei dela nem por um instante. Naquele momento, nada do que dissesse me pareceria absurdo.
Explicou-me ainda que, a fim de realizar um sonho da natureza, as mulheres precisam ter férrea disciplina. Inclinou-se para mim e disse, num cochicho confidencial, como se não quisesse que as outras ouvissem:
– Por disciplina férrea não quero dizer alguma rotina dura, e sim que as mulheres têm de romper a rotina que delas se espera. E têm de fazer isso em sua juventude. E, mais importante, com sua força intata. Muitas vezes, quando as mulheres já têm idade para acabar com esse negócio de serem mulheres, resolvem que está na hora de se ocuparem com pensamentos e atividades não-mundanas ou do outro mundo. Poucas sabem ou querem acreditar que tais mulheres dificilmente têm êxito. – Ela bateu de leve no meu estômago, como se estivesse tocando num tambor. – O segredo da força da mulher é o seu ventre.
Esperanza meneou a cabeça com ênfase, como se tivesse ouvi do a pergunta tola que me veio à cabeça: “Seu ventre?”
– As mulheres – continuou ela – devem começar queimando seu útero. Não podem ser terreno fértil que tenha de ser semeado pelos homens, seguindo a determinação do próprio Deus.
Ainda me vigiando atentamente, sorriu e perguntou:
– Você, por acaso, é religiosa?
Sacudi a cabeça. Não conseguia falar. Sentia a garganta tão apertada que mal conseguia respirar. Estava estarrecida, de medo e espanto, não tanto pelo que dizia, mas pela mudança nela ocorrida. Se me perguntassem, eu não poderia dizer quando havia mudado, mas de repente o seu rosto estava jovem e radioso; uma vida interior parecia ter sido acesa dentro dela.
– Muito bem! – exclamou Esperanza. – Assim você não terá de lutar contra crenças – observou ela. – Elas são muito difíceis de vencer. Fui criada como católica devota. Quase morri quando tive de examinar a minha atitude para com a religião. – Suspirou e sua voz ficou melancólica quando acrescentou: – Mas isso não foi nada comparado à luta que tive de travar antes de me tornar uma sonhadora de verdade.
Fiquei esperando, ansiosa, mal respirando, enquanto uma sensação bastante agradável, como uma leve corrente elétrica, se espalhava por todo o meu corpo. Preparei-me para ouvir uma história horripilante da luta entre ela e criaturas aterradoras. Mal consegui disfarçar a minha decepção Quando ela revelou que tivera de lutar contra si mesma.
– A fim de poder ser uma sonhadora, tive de vencer o meu ego – explicou Esperanza. – Nada, nada mesmo é tão difícil quanto isso. Nós, mulheres, somos as prisioneiras mais infelizes do ego. O ego é a nossa jaula. Nossa jaula é formada por ordens e expectativas despejadas sobre nós desde o momento em que nascemos. Você sabe como é que é. Se o primogênito for um menino, há uma comemoração. Se for menina, as pessoas dão de ombros e dizem: “Tudo bem. Ainda assim eu a amo e farei tudo por ela.”
Em respeito à velha, não soltei uma gargalhada. Nunca em minha vida eu tinha ouvido nada de parecido. Eu me considerava uma mulher independente. Mas, obviamente, à luz do que Esperanza dizia, não era nada melhor do que qualquer outra mulher. E, contrariando o modo como normalmente eu reagiria a uma idéia dessas, concordei com ela. Sempre me advertiram que a pré-condição de ser mulher era ser dependente. Ensinaram-me que a mulher seria efetivamente afortunada se pudesse ser desejável, para que os homens fizessem coisas para ela. Disseram-me que era aviltante, para a minha condição de mulher, tentar fazer alguma coisa por mim mesma, se isso me pudesse ser dado. Treinaram-me na idéia de que o lugar da mulher é no lar com o marido e os filhos.
– Como você, fui criada por um pai autoritário mas condescendente – continuou Esperanza. – Como você, pensava que era livre. Para chegar a entender a idéia dos feiticeiros, de que a liberdade não significava ser eu mesma, quase morri. Ser eu mesma era declarar a minha condição de mulher. E fazer isso tomava todo o meu tempo, esforço e energia.
“Os feiticeiros, ao contrário, compreendem a liberdade como a capacidade de fazer o impossível, o inesperado – sonhar um sonho que não tem base nem realidade na vida cotidiana. – A voz dela tornou-se de novo um sussurro, quando acrescentou: – A sabedoria dos feiticeiros é o que é empolgante e novo. Imaginação é o que a mulher precisa para modificar o ego e se tornar sonhadora.
Sonhos Lúcidos, pág. 54

– O segredo da força da mulher é o seu útero – disse Esperanza e, de novo, deu um tapinha na minha barriga. Disse que as mulheres sonham com seus úteros, ou melhor, dos seus úteros. O fato de terem úteros as tornam sonhadoras perfeitas.
Antes mesmo que eu terminasse o pensamento “por que o útero é tão importante?”, Esperanza me respondeu.
– O útero é o centro de nossa energia criadora – explicou -, tanto que, se não mais houvesse machos no mundo, as mulheres poderiam continuar a reproduzir. E o mundo, então, seria povoado apenas pela espécie humana feminina. – Ela acrescentou que as mulheres reproduzindo unilateralmente só poderiam reproduzir clones de si mesmas.
Fiquei sinceramente surpreendida diante desse conhecimento específico. Não pude deixar de interromper Esperanza para lhe dizer que havia lido a respeito de reprodução partenogenética e assexual nas aulas de biologia.
Ela deu de ombros e continuou sua explicação.
– As mulheres, portanto, tendo a capacidade e os órgãos para reproduzir a vida, também têm a capacidade de produzir sonhos com esses mesmos órgãos – disse. Observando o meu ar de dúvida, avisou-me: – Não se preocupe em saber como isso acontece. A explicação é muito simples, e como é simples é a coisa mais difícil de entender. Eu mesma, ainda, tenho certa dificuldade. Assim, como mulher de verdade, eu ajo. Sonho e deixo as explicações para os homens.
Esperanza disse que, originariamente, os feiticeiros de que ela me falara costumavam transmitir sua sabedoria para os descendentes biológicos ou pessoas de sua escolha determinada, mas os resultados mostraram-se catastróficos. Em vez de ampliar essa sabedoria, esses novos feiticeiros, escolhidos por favoritismo arbitrário, confabularam para se auto-enaltecerem. Por fim, foram destruídos e a sua destruição quase acabou com a sua sabedoria. Os poucos feiticeiros que restaram resolveram, então, que a sabedoria nunca mais passaria a seus descendentes ou a pessoas de sua escolha, e sim aos selecionados por um poder impessoal, a que chamavam de espírito.
Sonhos Lúcidos, pág. 57

– Você está anos atrasada – interrompi. – Hoje em dia as mulheres podem fazer tudo o que desejarem. Têm acesso a quase todos os centros de conhecimentos e a quase todos os tipos de trabalho que os homens podem realizar.
– Mas isso não tem sentido enquanto não têm um sistema de apoio, uma base de apoio – argumentou Esperanza. – De que adianta terem acesso ao que têm os homens quando ainda são consideradas seres inferiores, tendo de adotar atitudes e comportamentos masculinos a fim de ter êxito? As que são realmente bem-sucedidas são as convertidas perfeitas. E também elas menosprezam as mulheres.
“Segundo os homens, o útero limita as mulheres, tanto mental quanto fisicamente. Alguns são perversamente contrários às mulheres. Outros são mais sutis, pois estão dispostos a reconhecer que as mulheres poderiam ser tão capazes quanto os homens, não fosse o fato de não se interessarem por atividades racionais. E, se se interessam, não deveriam fazê-lo, pois é mais próprio para uma mulher ser fiel à sua natureza: uma companheira solícita e dependente do macho.
Esperanza disse tudo isso com indiscutível autoridade. No entanto, dali a momentos, fui acometida de dúvidas.
– Se o conhecimento não passa de uma construção masculina, então por que a sua insistência para que eu estude? – perguntei.
– Porque você é uma feiticeira, e como tal precisa saber o que influencia você e como – respondeu ela. – Antes de recusar alguma coisa, tem de compreender por que a recusa.
“Sabe, o problema é que o conhecimento, em nosso dias, deriva puramente de se raciocinar sobre as coisas. Mas as mulheres têm um caminho diferente que nunca é levado em consideração. Esse caminho pode contribuir para o conhecimento, mas teria de ser uma contribuição que nada tenha a ver com raciocinar sobre as coisas.
– Então, de que se trataria? – perguntei.
– Isso é você quem decide, depois de dominar os instrumentos do raciocínio e da compreensão.
Eu estava muito confusa.
– O que os feiticeiros propõem – explicou ela – é que os homens não podem ter o direito exclusivo de raciocinar. Parecem tê-lo agora porque o terreno onde aplicam a razão é um terreno em que prevalece o machismo. Então, vamos aplicar a razão a um terreno onde prevaleça o feminismo. E esse terreno, claro, é o cone invertido que lhe descrevi. A ligação das mulheres com o espírito em si.
Ela inclinou a cabeça um pouco para o lado, pensando no que quer dizer.
– Essa ligação tem de ser encarada com um aspecto diferente do raciocínio. Um aspecto que jamais foi usado: o lado feminino do raciocínio – disse ela.
– Qual é o lado feminino da razão, Esperanza?
– Muitas coisas. Uma delas é positivamente sonhar. – Ela me olhou inquisitivamente, mas eu nada tinha a dizer.
A risada gostosa dela me pegou desprevenida.
– Sei o que você espera dos feiticeiros. Quer rituais, encantamentos. Cultos estranhos e misteriosos. Quer se unir à natureza.
Quer comungar com os espíritos das águas. Quer o paganismo.
Alguma concepção romântica do que fazem os feiticeiros. Muito germânico. Para saltar para o desconhecido – continuou ela -, você precisa de fibra e cabeça. Somente com isso é que poderá explicar a si mesma e aos outros os tesouros que poderão ser encontrados. – Ela inclinou-se para mim, parecendo ansiosa para confiar alguma coisa. Coçou a cabeça e espirrou cinco vezes, como fizera o zelador. – Você precisa agir sobre o seu lado mágico – declarou ela.
– E o que é isso?
– O útero. – Ela falou aquilo com tanta calma e tão distante, como se não estivesse interessada na minha reação, que eu quase nem ouvi. Então, de repente, dando-me conta do absurdo do comentário dela, eu me endireitei e olhei para as outras. – O útero! – repetiu Esperanza. – O útero é o órgão feminino máximo. É o útero que dá às mulheres aquele poder a mais, aquela força a mais para canalizar a sua energia.
Ela explicou que os homens, em sua busca pela supremacia, conseguiram reduzir o poder misterioso da mulher, o útero, a um órgão rigorosamente biológico, cuja única função é reproduzir, carregar a semente do homem.
Como que obedecendo a uma deixa, Nélida se levantou e andou em torno da mesa, indo postar-se atrás de mim.
– Conhece a história da Anunciação? – cochichou ela em meu ouvido.
Rindo, virei-me para olhá-la.
– Não.
Naquele mesmo sussurro confidencial, ela passou a me contar que, segundo a tradição judeu-cristã, os homens são os únicos que ouvem a voz de Deus. As mulheres foram excluídas desse privilégio, com a exceção da Virgem Maria.
Disse Nélida que um anjo sussurrar para Maria era, claro, uma coisa natural. Desnatural era o fato de que tudo o que o anjo tinha a dizer a Maria era que daria à luz o filho de Deus. O útero não recebeu o conhecimento e, sim, a promessa da semente de Deus. Um deus masculino que, por sua vez, gerava outro deus masculino.
Eu queria pensar, refletir sobre tudo o que ouvia, mas a minha cabeça estava num turbilhão confuso.
– E os feiticeiros masculinos? – perguntei. – Eles não têm útero e, no entanto, estão claramente ligados ao espírito.
Esperanza me fitou com um prazer não-dissimulado, depois olhou por cima do ombro, como se tivesse medo de ser ouvida, e cochichou:
– Os feiticeiros conseguem se alinhar ao intento, ao espírito, porque desistiram daquilo que especificamente define a sua masculinidade. Não são mais machos.
Sonhos Lúcidos, pág. 248

Continuamos a andar em silêncio e, depois, disse-me que a diferença entre o feiticeiro e a pessoa comum era que aquele podia entrar à vontade num estado de sonhar acordado. Ela deu tapinhas em meu braço, como que para enfatizar o que dizia; num tom confidencial, acrescentou:
– Você está sonhando acordada porque, a fim de ajudá-la a aguçar a sua energia, criamos uma bolha em volta de você, desde a primeira noite em que chegou.
Ela passou a dizer que, desde o momento em que me conheceram, tinham-me apelidado de fosforito, fosforozinho.
– Você arde depressa demais e sem utilidade. – Gesticulou, indicando que me calasse e acrescentou que eu não sabia focalizar a minha energia. – Ela é gasta para proteger e manter a idéia do seu ego. – Novamente fez sinal para que me calasse e disse que o que pensamos ser o nosso ego pessoal é, na verdade, apenas uma idéia. Disse que o grosso de nossa energia é consumido em defender essa idéia.
Esperanza arqueou as sobrancelhas de leve, um sorriso exultante espalhando-se por seu rosto.
– Alcançar um ponto de desprendimento, em que o ego é apenas uma idéia que pode ser modificada à vontade, é um verdadeiro ato de feitiçaria e é o mais difícil de todos – explicou. – Quando a idéia do ego se retira, os feiticeiros têm energia para se alinharem com o intuito de serem mais do que o que acreditamos ser normal. As mulheres, por terem útero, podem focalizar sua atenção com grande facilidade em algo de seus sonhos enquanto sonham. É exatamente isso que você tem feito o tempo todo. sem o saber. Esse objeto torna-se uma ponte que liga você ao intento.
– E que objeto devo usar?
Em seus olhos apareceu um lampejo de impaciência. Depois disse que em geral era uma janela ou uma luz ou mesmo a cama.
– Você é tão boa nisso que já é uma segunda natureza para você – garantiu-me. – É por isso que tem pesadelos. Disse-lhe tudo isso quando você estava num profundo estado de sonhar acordada e você compreendeu que. enquanto se recusar a focalizar sua atenção sobre algum objeto. antes de dormir. não terá maus sonhos.
Você está curada. não está? – perguntou.
Minha primeira reação. claro. foi contrariá-la. No entanto, após pensar um momento. não pude deixar de concordar com ela. Depois de conhecê-las, em Sonora, eu tinha ficado bastante livre de meus pesadelos.
Você nunca há de se livrar inteiramente deles enquanto persistir em ser você mesma – declarou ela. – O que deveria fazer, claro, era explorar seu talento para sonhar. propositada e inteligentemente. É para isso que está aqui. E a primeira lição é que a mulher deve, por meio de seu útero, focalizar sua atenção sobre um objeto. Não um objeto do sonho em si, mas um independente, um do mundo anterior ao sonho. No entanto, não é o objeto que interessa – ela se apressou em dizer. – O importante é o ato propositado de focalizá-lo, à vontade, antes do sonho e enquanto se continua o sonho.
Ela me avisou que, embora aquilo parecesse bem simples, era uma tarefa gigantesca. que eu poderia levar anos para realizar.
– O que acontece normalmente é que acordamos no instante em que focalizamos a atenção sobre o objeto exterior – explicou.
– O que significa usar o útero? – interrompi. – E como se faz isso?
– Você é mulher – disse Esperanza baixinho. – Você sabe sentir com o seu útero.
Tive vontade de contradizê-la, explicar que não sabia nada disso mas, antes que pudesse fazê-lo, ela passou a explicar que, na mulher, os sentimentos originam-se no útero.
– Nos homens – disse ela -, os sentimentos originam-se no cérebro, – Ela me cutucou no estômago e acrescentou: – Pense nisso. Uma mulher não tem coração a não ser tendo filhos porque seus sentimentos vêm do útero. A fim de focalizar a sua atenção no útero, pegue um objeto e o coloque em sua barriga ou esfregue-o em sua genitália.
Ela riu muito ao ver minha expressão de desalento e, então, entre as risadas, implicou comigo:
– Não me excedi. Podia ter dito que você tinha de molhar o objeto com os seus humores orgânicos, mas não disse. Depois que você adquire profunda familiaridade com o objeto – continuou ela, novamente séria -, ele estará sempre ali, para lhe servir de ponte
Continuamos andando, caladas, por algum tempo; ela parecia absorta em seus pensamentos; eu estava louca para dizer alguma coisa, mas sabia que nada tinha a dizer. Quando ela falou, afinal, a voz mostrou-se severa, exigente.
– Você não pode perder mais tempo – disse. – É muito natural que, em nossa estupidez, atrapalhemos as coisas. Os feiticeiros sabem disso melhor do que ninguém. Você tem de aprender controle e disciplina porque não tem mais margem para erros. Você fez tudo errado, sabe. Nem sequer sabia que Isidoro Baltazar tinha partido.
O tênue dique que estava prendendo a avalancha de sentimentos rompeu-se. Minha memória voltou e a tristeza me dominou de novo. Tornou-se tão intensa que nem notei que havia sentado e afundava na terra como se ela fosse uma esponja. Por fim, a terra me engoliu. Não foi uma experiência sufocante ou claustrofóbica porque a sensação de estar sentada na superfície coexistia simultaneamente com a percepção de estar sendo engolida pela terra, uma sensação dupla que me fez gritar:
– Agora estou sonhando!
Aquela declaração pronunciada em voz alta deslanchou alguma coisa dentro de mim; uma nova avalancha de recordações diferentes me inundou. Sabia o que havia de errado comigo: tinha errado e não tinha energia para sonhar. Todas as noites, desde a minha chegada, sonhara o mesmo sonho, de que me esquecera até aquele momento. Sonhara que as feiticeiras iam ao meu quarto e me exercitavam nos raciocínios dos feiticeiros. Elas me disseram, vezes e mais vezes, que sonhar é a função secundária do útero sendo a primeira a reprodução e o que estiver relacionado com isso. Disseram-me que sonhar é uma função natural nas mulheres, corolário puro da energia. Tendo suficiente energia, o corpo da mulher, por si só, desperta as funções secundárias do útero, e a mulher sonhará sonhos inconcebíveis.
No entanto, essa energia necessária é como o auxilio a um país subdesenvolvido: não chega nunca. Alguma coisa na ordem geral de nossas estruturas sociais impede que essa energia se libere para que as mulheres possam sonhar.
Se essa energia fosse livre, as feiticeiras me disseram, chegaria a derrubar a ordem “civilizada” das coisas. Mas a grande tragédia das mulheres é que a sua consciência social domina completamente a sua consciência individual. As mulheres têm medo de serem diferentes e não querem se afastar demais dos confortos do conhecido.
As pressões sociais impostas a elas, para não se desviarem, são fortes demais e, em vez de mudarem, concordam com o que lhes foi ordenado: as mulheres existem para estar às ordens dos homens. Assim, nunca podem sonhar sonhos de feitiçaria, embora possuam disposição orgânica para tal.
A feminilidade destruiu as oportunidades das mulheres. Quer seja influenciada pelo aspecto religioso ou científico, continua a marcar as mulheres com o nosso timbre: sua função principal é reproduzir e, se conseguiram certo grau de igualdade política, social ou econômica, em última análise é irrelevante.
As mulheres me diziam isso todas as noites. Quanto mais eu me lembrava e compreendia suas palavras, maior o meu pesar. Minha tristeza não mais me pertencia, mas a todas nós, uma raça de seres esquizóides presos numa ordem social que nos algemou a nossas próprias incapacidades. Se, algum dia, nos libertarmos, será apenas momentaneamente, uma clareza breve, antes de mergulharmos novamente nas trevas, de bom grado ou forçadas.
– Pare com esse lixo sentimental – ouvi uma voz dizer. Era uma voz de homem. Levantei os olhos e vi o zelador debruçado, me espiando.
– Como é que você chegou aqui? – perguntei. Eu estava intrigada e um pouco lisonjeada. – Andou nos seguindo? – Mais que uma pergunta, era uma acusação.
– É, estive seguindo você, em especial – respondeu, rindo de mim.
Examinei-lhe o rosto. Não acreditei nele. Sabia que estava caçoando de mim, mas não fiquei aborrecida nem assustada com o brilho intenso nos olhos dele.
– Onde está Esperanza? – perguntei. Ela não estava ali. – Para onde ela…? – balbuciei, nervosa, sem poder falar direito.
– Está por aí – disse, sorrindo. – Não se preocupe. Eu também sou seu mestre. Está em boas mãos.
Vacilando, pus minha mão na dele. Sem esforço, puxou-me para uma pedra chata sobre uma poça d’água grande, oval, que era alimentada por um regato borbulhante, vindo de algum lugar na escuridão.
– E, agora, tire a roupa – ordenou ele. – Está na hora do seu banho cósmico
Sonhos Lúcidos, pág. 276

– Tenha paciência comigo – pediu ela. – Essa é a crença que escolhi e defendo. À medida que você for avançando em sua recapitulação, eu lhe contarei a origem dela. Basta dizer que é parte fundamental da arte que estou lhe ensinando.
– Se é tão importante quanto você afirma, Clara, talvez seja melhor falar-me dela agora – repliquei. – Antes de prosseguirmos com a recapitulação, gostaria de saber em que estou me metendo.
– Tudo bem, se insiste – assentiu ela com um movimento de cabeça.
Clara serviu chá de camomila em nossas canecas e acrescentou uma colher de mel na sua.
Com a voz peremptória do mestre esclarecendo o neófito, ela explicou que as mulheres, mais do que os homens, são os verdadeiros sustentáculos da ordem social, e que, para cumprir este papel, elas foram educadas, uniformemente em todo o mundo, para estarem a serviço do homem.
– Não faz diferença se elas são criadas como escravas ou se são mimadas e amadas – observou ela. – A finalidade e o destino fundamental das mulheres continuam sendo os mesmos: nutrir, proteger e servir os homens.
Clara olhou para mim, creio que para avaliar se eu estava acompanhando seu argumento. Creio que estava, mas minha reação mais íntima era negar tudo que ela estava dizendo.
– Isto pode ser verdade em alguns casos – concedi -, mas não creio que você possa fazer tamanha generalização e incluir todas as mulheres.
Clara discordou veementemente.
– O lado diabólico da posição servil das mulheres é que ele não parece ser simplesmente um ditame social- disse ela -, mas um imperativo biológico fundamental.
– Espere um momento, Clara – protestei. – Como você chegou a essas conclusões?
Ela explicou que cada espécie possui um imperativo biológico para perpetuar-se, e que a natureza proporciona instrumentos para assegurar a fusão das energias masculina e feminina da maneira mais eficiente. Disse que, na esfera humana, conquanto a função primordial da relação sexual seja a procriação, ela também tem uma função secundária e velada, que é assegurar o fluxo contínuo de energia das mulheres para os homens.
Clara enfatizou tanto a palavra “homens” que tive de perguntar:
– Por que você diz isto como se fosse uma avenida de mão única? O ato sexual não é uma troca uniforme de energia entre homem e mulher?
– Não – negou ela enfaticamente. – Os homens deixam linhas energéticas específicas dentro do corpo das mulheres. Assemelham-se a tênias luminosas que se movimentam no interior do útero, sugando energia.
– Isto parece definitivamente sinistro – comentei ironicamente.
Ela prosseguiu com sua exposição em total seriedade.
– Elas são colocadas ali por uma razão ainda mais sinistra falou, ignorando minha risada nervosa -, que é assegurar o suprimento constante de energia para o homem que depositou essas linhas energéticas. Estas, estabeleci das através da relação sexual, recolhem e roubam energia do corpo feminino, a fim de beneficiar o homem que as deixou ali.
Clara falou com tanta certeza que não consegui gracejar e tive de levá-la a sério.
– Não que eu aceite por um instante sequer o que você está dizendo, Clara – falei -, mas, só por curiosidade, como chegou a uma conclusão tão despropositada? Alguém lhe falou disso?
– Sim, meu mestre me falou a respeito. A princípio também não acreditei nele – admitiu ela -, mas ele também me ensinou a arte da liberdade, o que significa que aprendi a ver o fluxo da energia. Agora sei que estava certo, pois posso ver os filamentos semelhantes a vermes nos corpos femininos. Você, por exemplo, possui vários deles, todos ainda ativos.
– Digamos que seja verdade, Clara – concedi, inquieta Apenas para continuar com o debate, permita-me perguntar-lhe por que isto seria possível? Este fluxo de mão única da energia não seria uma injustiça com as mulheres?
– O mundo inteiro é injusto com as mulheres! – exclamou ela. – Mas o problema não é esse.
– Qual é o problema, Clara? Acho que não percebi.
– O imperativo da natureza é perpetuar nossa espécie. Para assegurar isto, as mulheres têm de carregar um fardo excessivo em seu nível energético básico. O que significa um fluxo de energia que sobrecarrega as mulheres.
– Mas você ainda não explicou por que deve ser assim insisti, já começando a oscilar com a força de suas convicções.
– As mulheres são o alicerce para a perpetuação da espécie humana – replicou Clara. – Grande parte da energia provém delas, não apenas para gestar, dar à luz e nutrir sua prole, mas também para assegurar que o homem represente seu papel em todo esse processo.
Clara explicou que, teoricamente, esse processo assegura que a mulher alimente seu homem energeticamente através dos filamentos deixados por ele dentro do seu corpo, de modo que o homem se toma misteriosamente dependente da mulher em nível etérico. Isto fica claro na atitude evidente do homem que retoma repetidas vezes para a mesma mulher, a fim de manter sua fonte de sustento. Deste modo, disse Clara, a natureza possibilita aos homens, além do impulso imediato de gratificação sexual, estabelecer vínculos mais permanentes com as mulheres.
– Esses filamentos energéticos, deixados nos úteros das mulheres, também se fundem com a composição energética do filho, caso ocorra a concepção – acrescentou Clara. – Este pode ser o rudimento dos laços familiares, pois a energia do pai se funde com a do feto e permite ao homem sentir que o filho é seu. Estes são alguns fatos da vida que a mãe nunca conta à filha. As mulheres são criadas para serem facilmente seduzidas pelos homens, sem terem a menor idéia das conseqüências do ato sexual em termos do escoamento energético produzido em cada uma delas. Esta é minha opinião e é isto que não é justo.
Ouvindo Clara falar, tive de concordar que parte do que ela estava dizendo fazia sentido para mim num nível corporal profundo. Ela me incentivou a não apenas concordar ou discordar, mas a pensar sobre tudo aquilo e avaliar o que havia dito de maneira corajosa, sem preconceitos e inteligente.
– Já é suficientemente ruim um homem deixar linhas de energia dentro do corpo da mulher – prosseguiu Clara -, embora isto seja necessário para ter filhos e assegurar a sua sobrevivência. Mas ter linhas de energia de dez ou vinte homens dentro dela, sugando sua luminosidade, é mais do que alguém pode suportar. Não admira que as mulheres nunca possam levantar a cabeça.
– Uma mulher pode se livrar dessas linhas? – perguntei, cada vez mais convencida de que havia alguma verdade nas palavras de Clara.
– A mulher carrega esses vermes luminosos por sete anos disse Clara – e depois desse tempo eles desaparecem ou enfraquecem. Contudo, o problema é que, quando os sete anos estão prestes a chegar ao fim, todo o exército de vermes, do primeiro homem ao último que a mulher teve, toma-se agitado de uma só vez, e a mulher é levada novamente a ter relações sexuais. Então todos os vermes revi vem mais fortes do que nunca, para sugar a energia luminosa da mulher por mais sete anos. Na verdade, é um ciclo interminável.
– E se a mulher for celibatária? – indaguei. – Os vermes simplesmente morrem?
– Sim, se ela conseguir resistir ao sexo por sete anos. Mas é praticamente impossível a mulher permanecer celibatária em nossa época e século, a menos que se tome freira ou tenha dinheiro para sustentar-se. E mesmo assim ela continuará precisando de um fundamento lógico totalmente diferente.
– Por que, Clara?
Porque não é apenas um imperativo biológico que as mulheres tenham relações sexuais, mas também uma injunção social.
Clara ofereceu-me então o exemplo mais confuso e perturbador. Disse que, como somos incapazes de ver o fluxo de energia, podemos perpetuar desnecessariamente padrões de comportamento ou interpretações emocionais associadas a este fluxo de energia invisível. Por exemplo, para a sociedade, exigir que as mulheres se casem ou pelo menos ofereçam-se aos homens é errado, assim como é errado as mulheres sentirem-se insatisfeitas se não tiverem o sêmen masculino dentro de si. É verdade que as linhas energéticas masculinas lhes conferem finalidade, deixa-as satisfeitas do ponto de vista de seus destinos biológicos: alimentar os homens e seus frutos. Mas os seres humanos são inteligentes o bastante para exigir mais de si mesmos do que simplesmente cumprir o imperativo da reprodução. Ela disse que, por exemplo, evoluir constitui igualmente um imperativo, até mesmo mais importante do que a reprodução; e que, neste caso, a evolução envolve o despertar das mulheres para seu verdadeiro papel no esquema energético da reprodução.
Finalmente, ela voltou sua argumentação para o nível pessoal e afirmou que eu havia sido criada, assim como todas as outras mulheres, por uma mãe que considerava sua função primordial orientar-me para encontrar um marido adequado, a fim de que eu não tivesse o estigma de solteirona. Realmente eu fora criada, como um animal, para ter sexo, não importa como minha mãe decidisse chamá-lo.
– Você, assim como todas as outras mulheres, foi iludida e forçada à submissão – continuou Clara. – E o lado triste da história é que você ficou aprisionada neste padrão, ainda que não pretenda ser mãe.
Suas afirmações eram tão perturbadoras que comecei a rir de puro nervosismo. Clara não estava nem um pouco transtornada.
– Talvez tudo isto seja verdade, Clara – falei, procurando não parecer condescendente. – De qualquer maneira; porém, de que maneira a lembrança do passado pode mudar alguma coisa? Não são águas passadas?
– Só posso lhe dizer que, para acordar, você tem de romper o círculo vicioso – contrapôs ela, os olhos verdes analisando-me com curiosidade.
Reafirmei que não acreditava em suas teorias sobre os imperativos biológicos diabólicos, ou machos vampiros sugando a energia das mulheres, e argumentei que simplesmente ficar sentada numa caverna recordando não ia mudar nada.
– Existem certas coisas sobre as quais simplesmente não quero pensar mais – falei asperamente, batendo com o punho na mesa da cozinha. Levantei-me, pronta para partir, e disse-lhe que não queria mais ouvir falar de recapitulação, lista de nomes ou quaisquer imperativos biológicos.
– Vamos fazer um trato – sugeriu Clara com o ar de um comerciante pronto para enganar o freguês. – Você é uma pessoa direita; gosta de ser honesta. Proponho, portanto, chegarmos a um acordo.
– Que tipo de acordo? – perguntei com uma ansiedade crescente.
Ela arrancou uma folha de papel do bloco e estendeu-a a mim.
– Quero que você escreva e assine um documento afirmando que você vai tentar fazer o exercício de recapitulação por um mês apenas. Se depois de um mês você não perceber nenhum acréscimo de energia nem qualquer melhora na sua maneira de sentir em relação a si mesma ou à vida em geral, você estará livre para voltar para casa, onde quer que ela seja. Se acontecer isto, você poderá simplesmente descartar toda a experiência como o pedido bizarro de uma mulher excêntrica.
Sentei-me novamente para acalmar-me. Enquanto bebericava o chá, ocorreu-me a idéia de que isto era o mínimo que eu podia fazer após todo o trabalho que Clara tivera por minha causa. Ademais, era evidente que ela não ia liberar tão facilmente. Eu bem poderia fingir que estava recapitulando minhas lembranças. Afinal de contas, quem poderia saber se, na caverna, eu faria visualização e respiração, ou se simplesmente ia devanear ou tirar uma soneca?
– É só um mês – falou ela com sinceridade. – Você não estará desperdiçando a sua vida. Acredite em mim, estou realmente tentando ajudá-la.
– Sei disso – falei. – Mas por que está fazendo tudo isso por mim? Por que eu, Clara?
– Existe uma razão – replicou ela -, mas é tão artificial que não posso revelá-la agora. A única coisa que posso lhe dizer é que, ajudando-a, estou cumprindo uma meta valiosa: estou pagando uma dívida. Você aceitaria o pagamento de uma dívida como o motivo?
Clara fitou-me com olhos tão esperançosos que peguei o lápis e escrevi o compromisso, escolhendo bem as palavras para que não houvesse dúvidas em relação ao período de um mês. Ela barganhou a não-inclusão naquele mês do tempo que eu levaria para fazer a lista de nomes. Concordei e fiz um adendo nesse sentido; por fim, apesar de tudo, assinei o compromisso.
A Travessia das Feiticeiras, pág. 68

– Não se concentre em sua perda – disse Nelida, sentindo meu estado de espírito. – Pelo menos por enquanto. Vamos tratar de maneiras úteis de concentrar energia para tentar o inevitável: o vôo abstrato. Agora você sabe que pertence a nós, a mim em particular. Hoje você deverá tentar vir ao meu lado da casa.
Nelida tirou os sapatos e sentou-se numa poltrona em frente a mim. Com movimento gracioso, levou os joelhos ao peito e colocou os pés no assento da poltrona. Puxou a saia por sobre as pernas, de modo que apenas os tornozelos e os pés permaneciam à mostra.
– Agora procure deixar de lado a timidez, o julgamento e a perversão – sugeriu ela. Então, antes que eu pudesse responder, ela levantou a saia e afastou as pernas.
– Olhe para minha vagina – ordenou. – O buraco entre as pernas de uma mulher é a abertura energética do útero, um órgão que é ao mesmo tempo poderoso e rico.
Para meu horror, Nelida não estava usando calcinhas. Pude ver perfeitamente sua vagina. Eu queria desviar o olhar, mas estava hipnotizada. Só conseguia olhar fixamente, a boca meio aberta. Ela não tinha pêlos e seu abdômen e pernas eram rijos e lisos, sem rugas nem gorduras.
– Como não estou no mundo como mulher, meu útero adquiriu um humor diferente do humor de uma mulher comum e indisciplinada – disse Nelida, sem o menor sinal de constrangimento – Dessa forma, simplesmente você não deve me considerar pejorativamente.
Ela de fato era linda, e senti uma pontada de pura inveja. Eu tinha no mínimo um terço da sua idade e não teria tão bela aparência naquela posição. Na verdade, eu jamais sonharia em deixar alguém me ver despida. Eu sempre usava roupões de banho compridos, como se tivesse algo a esconder. Recordando minha própria timidez, desviei o olhar delicadamente, mas não sem antes dar uma olhada no que só poderia chamar de total energia – a região em tomo da vagina parecia irradiar uma força que me deixava tonta cada vez que a contemplava.
Fechei os olhos, sem me importar com o que ela iria pensar de mim. A risada de Nelida pareceu-me uma cascata de água, suave e borbulhante.
– Agora você está perfeitamente relaxada – disse ela. Olhe novamente para mim e respire profundamente algumas vezes para recarregar-se.
– Espere só um momento, Nelida – pedi, tomada de um medo repentino, não de olhar para a sua vagina, mas do que eu havia acabado de perceber. Mostrar-me sua nudez produzira alguma coisa inconcebível para mim: tranqüilizara minha angústia e fizera-me abandonar todo meu puritanismo. Em um instante, eu havia me tornado extraordinariamente familiarizada com Nelida. Gaguejando lamentavelmente, contei-lhe o que havia acabado de perceber.
– É exatamente o que a energia proveniente do útero deve realizar – alegrou-se Nelida. – Agora você deve realmente olhar para mim e respirar profundamente. Depois poderá analisar as coisas do seu coração.
Fiz o que ela disse, sem sentir nenhuma vergonha. Respirar em sua energia fez-me sentir estranhamente revigorada, como se houvesse se formado um elo entre nós, o qual não precisava de palavras.
– Você pode realizar maravilhas controlando e fazendo circular a energia do útero – disse Nelida, puxando novamente a saia por sobre as pernas.
Nelida explicou que a principal função do útero é a reprodução, com a finalidade de perpetuar nossa espécie. Contudo, sem que as mulheres o saibam, o útero também possui funções secundárias, sutis e sofisticadas. E nós, ela e eu, disse Nelida, estávamos interessadas no desenvolvimento destas últimas.
Fiquei tão feliz por ela ter-me incluído em sua afirmação que realmente senti um formigamento no estômago. Ouvi atentamente suas explicações de que a função secundária mais importante do útero é servir de guia para o duplo. Enquanto os homens precisam recorrer a uma mistura de raciocínio e intenção para conduzir seus duplos, as mulheres têm o útero à sua disposição, poderosa fonte de energia, abundante em atributos e funções misteriosos, todos eles destinados a proteger e nutrir o duplo.
– Naturalmente tudo isso é possível se você se libertar de toda a energia obstrutora que os homens deixaram em seu interior disse ela. – Uma completa recapitulação de toda sua atividade sexual cumprirá essa tarefa.
Ela ressaltou que a utilização do útero constitui método extremamente poderoso e direto de alcançar o duplo. Lembrou-me do passe de feitiçaria que eu havia aprendido, no qual respira-se diretamente com a abertura da vagina.
O útero é a maneira das fêmeas sentirem coisas e regularem seus corpos – explicou. – Através dele, as mulheres podem gerar e armazenar poder em seus duplos para construir ou destruir, ou para se tornarem unas com tudo que as cerca.
Novamente senti um formigamento no abdômen, uma vibração leve que desta vez difundiu-se para minha genitália e parte interior das coxas.
Outra maneira de alcançar o duplo, também chamado de outro, afora a utilização da energia do útero, é através do movimento – continuou Nelida. – Por esta razão Clara ensinou-lhe os passes de feitiçaria. Existem dois passes que você terá de usar hoje, a fim de preparar-se adequadamente para o que está por vir.
Ela foi até o armário, pegou uma esteira de palha, desenrolou-a no chão e disse-me para me deitar. Já deitada de costas, ela me pediu para flexionar um pouco os joelhos, cruzar os braços sobre o peito, girar uma vez para o lado direito e depois para o esquerdo. Fez-me repetir esse movimento sete vezes. Enquanto eu me virava, tinha de curvar lentamente a coluna vertebral na altura dos ombros.
Em seguida ela me pediu para sentar-me de pernas cruzadas mais uma vez, recostando no sofá, enquanto ela foi se sentar na poltrona. Lenta e suavemente, ela inspirou pelo nariz. Então, girou delicadamente o braço e a mão esquerdos para fora e para cima, como se estivesse cavando um buraco no ar com a mão. Ela inseriu a mão nele, pegou alguma coisa e retirou-a, dando-me a impressão total de uma longa corda sendo retirada de um buraco no ar. Por fim, ela repetiu os mesmos movimentos com a mão e o braço direitos.
Enquanto ela realizava seu passe de feitiçaria, reconheci que aquele movimento tinha a mesma natureza dos que Clara me havia ensinado, mas ao mesmo tempo eram diferentes, mais leves, mais delicados, mais energéticos. Os passes de feitiçaria de Clara assemelhavam-se aos movimentos das artes marciais; eram graciosos e plenos de força interior. Os passes de Nelida eram sombrios, ameaçadores e, no entanto, era agradável contemplá-los; eles irradiavam uma energia nervosa, mas não eram agitados.
Executando o passe, o rosto de Nelida irradiava beleza. Seus traços eram simétricos, perfeitos. Observando seus movimentos primorosos, realizados com total alheamento e desapego, lembrei-me do que Clara dissera a respeito de Nelida ser destituída de piedade.
– Este passe visa ao armazenamento de energia da vastidão que existe além de tudo que vemos – informou ela. – Experimente fazer um buraco e coloque a mão além da fachada de formas visíveis, colhendo a energia que nos sustenta. Faça o movimento.
Tentei imitar seus movimentos graciosos e rápidos, mas senti-me rígida e desajeitada em comparação a Nelida. Não conseguia sentir minha mão entrando em um buraco e colhendo energia, nem mesmo com todo o esforço da imaginação. Contudo, quando terminei o passe, senti-me forte e irradiando energia.
– Não é preciso muito para comunicar-se com o corpo etérico ou alcançá-lo – prosseguiu Nelida. – Além de usar o útero e o movimento, o som é uma maneira poderosa de atrair a atenção desse corpo etérico.