Vajrayogini – A Shakti orientadora e inspiradora no caminho de iluminação

Vajrayogini – A Shakti orientadora e inspiradora no caminho de iluminação

Shakti (e também Prajna) não só tem o poder dinâmico de projetar ou dar a luz ao mundo, ao ego, a vida, a tudo o que é mutável e perecível, mas também tem o poder de consumir, de dissolver tudo o que veio dela. Porque isso tudo é impermanente, inter-relacionado e interdependentente formando, uma teia de fenômenos que possuem a mesma essência, ou seja, é uma unidade, que contém em si todos os opostos com as mesmas potencialidades, mas são percebidos e experimentados, ilusoriamente, pela consciência individual (ego) ignorante, como individualidades independentes gerando todos os enganos e por fim todos os sofrimentos. Quando se conscientiza dessa verdade o mundo ilusório, aparentemente desmembrado, partilhado, independente se desfaz pelo próprio poder de Shakti-Maya. “A energia vital, é por fim, não menos destrutiva do que criativa: assim também é a Deusa. A vida alimenta-se da própria vida. No final toda criatura torna-se alimento de outra.”

Para mostrarmos essa verdade sobre a impermanência deste mundo efêmero e o poder de renunciá-lo e aniquilá-lo, Shakti, já no sentido de Prajna, se manifesta como a Vajrayogini na tradição tântrica tibetana.

Figura – Vajrayogini

Antes de falarmos de Vajrayogini é importante verificar que ela possui característica muitíssimo semelhantes a Kali hindu.

Kali é a deusa indiana devoradora e aniquiladora, numa pobre interpretação, é o aspecto negativo do feminino, “A Sombra da Morte” . A palavra deriva de kala que significa ‘tempo’, mostrando a impermanência dos fenômenos da existência. Mais especificamente simboliza o “tempo negro,…o útero e o túmulo do mundo” , esta entre as “deusas mãe canibais……personificação do tempo que tudo devora” . Este simbolismo expressa tanto o seu poder de dar vida a totalidade, como também de destruí-la; assim como cria a ilusão, também tem o poder de destruir a ilusão, sendo assim, mostrar a verdadeira face da realidade. “A terrível… cujo estômago é um vácuo que jamais pode ser preenchido e cujo útero está eternamente parindo coisas.”

Figura – Kali

figura – Estatua Vajrayogini

“Prisão e libertação, ambas são obras suas … Ela é chamada a Redentora e a Removedora do cativeiro que prende a pessoa ao mundo.”

Assim Kali evoluiu em seu simbolismo e seu aspecto, na atualidade, é conhecido como Vajrayogini (=Adamantine Yogini), uma divindade meditational tântrica budista (chamada de yidam em tibetano ou sânscrito: ishtadeva) encarnando a feminilidade totalmente esclarecida (iluminada), mas também a sabedoria enérgica.

Vajrayogini é a principal Dakini (“espaço-corajoso”, “mulher celeste” ou fada da nuvem, é a “encarnação da mulher iluminada de energia),  um aspecto orientador e inspirador no caminho da iluminação de um praticante tântrico.

Figura – Vajrayogini

O termo Dakini deriva da raiz dak que significa “para já acenam com som”, ou seja,  a chamada ou bata, mas pode ter origem numa palavra bengali que significa intactos ou par (de parceira). As Dakinis aparecem no Hinduísmo, na tradição Bön, mas são prevalencem no budismo Vajrayana tibetano onde a Dakini, ou tem temperamento de irado ou é uma musa inspiradora para espiritual prática.  Na sua essência, Dakinis são deidades femininas de forma enérgica, evocativa do movimento e da energia no espaço. Na tradução como ‘mulher celeste’, o céu ou espaço indica ‘shunyata’, a insubstantiabilidade dos seres e dos fenômenos, sendo simultaneamente, a pura potencialidade para todas as possíveis manifestações. Elas são associadas a diversas funçoes da energia, ligadas ao caminho da transformação como, por exemplo, a energia das emoções negativas (kleshas) ou venenos são transformadas na energia da luminosa consciência (esclarecida) ou sabedoria (jnana).

As Dakinis estão classificadas em três classes. Dakinis Exteriores, Interiores e Secretas. Dakinis secretas representam a própria Prajnaparamita (tibetano yum chenmo) ou nulidade, o vazio de acordo com a natureza da realidade doutrina budista Mahayana. Dakinis interiores são divindades meditationais (tibetano: yidam), totalmente esclarecida (Budas) que ajudam o praticante a reconhecer sua própria essência budica. Já as Dakinis exteriores são as formas físicas da Dakini, alcançadas através de práticas tantricas tais como o Seis Yogas de Naropa que trabalham com as energias sutis do corpo de modo que o corpo fique compatível com uma mente iluminada.  A Dakini exterior é, na verdade, uma Dakini em forma humana.  Ela é uma Yogini, ou praticante tântricos já realizada ou com altas realizações, mas pode também ser um karmamudra, ou consorte, de um Yogi (praticante masculino, também possuidos de determinadas realizações).

Figura – Dakini

Dakinis também podem ser classificados de acordo com o Trikaya, ou seja níveis de corpos. Dharmakaya Dakini, que é Samantabhadri, representando a origem dos demais corpos onde aparecem todos os fenômenos em essência (como vacuidade);  sambhogakaya dakinis, que são aquelas Dakinis escolhidas para a nossa prática, e as nirmanakaya dakinis, que são as mulheres que nascem ou que adquirem potencialidades especiais, ou até mesmo todas as mulheres, em geral, como eles podem ser classificados em três dos cinco famílias de Buda.

Encontar a Dakini, ou ser iniciado por ela, é uma etapa, entre as últimas, no caminho do budismo Vajrayana (caminho da Iluminiação) ou Budismo “esotérico”. A primeira é o encontro com o guru que dá a iniciação (ou empoderamento – transmissao de poder – energia) referente ao aspecto Dakini, isso corresponde à primeira realização, do praticante, sobre a verdadeira condição da realidade. A segunda fase corresponde à Contemplação da imagem da Dakini escolhida, e a terceira é a união mística com a Dakini (se tornar um com ela), pois é ela a fonte das actividades de realização.  No Dzogchen (rdzogs chen) estas três fases referem-se a tawa (LTA ba), gompa (sgom pa) e chöpa (spyod pa). A primeira é a visão direta da verdadeira natureza da realidade (vacuidade dos seres e fenômenos) e não apenas uma idéia intelectual da realidade. A segunda é a continuidade desta visão (familiaridade), em sessões de Contemplação; e o terceiro é a continuidade deste visão nas atividades da vida quotidianas, bem como a utilização das imperfeição para tornar a visão ininterrupta.  Por isso, a mente sutil (pode-se até dizer inconsciente coletiva) também pode ser representada pela Dakini por encarnar o indissocialização entre vazio e sabedoria.

Para os não praticantes, as Dakinis encarnam o espírito do furor feminino, ela aparece para dançar em um frenesi selvagem, no caos, destruição e transformação.  A cólera presente nelas é para demonstrar os próprios estados de raiva, ganância e ilusão que os indivíduos devem cortadas-eliminar e transformar.  A determinação e a forte energia que elas exprimeme são necessárias para cortar as raízes da ignorância que levam a estes estados negativos.

Na forma sombria, a Dakini está relacionada com Valquíria na mitologia Nórdica. As valquírias eram deidades menores, donzelas e servas de Odin. O termo deriva do nórdico antigo falkyr ou valkyrja, algo como “as que selecionam os mortos em batalha”. Elas eram mulheres jovens e belas, louras de olhos azuis, que apareciam montadas em cavalos alados, armadas com lanças, elmos, As valquírias cavalgavam nos céus com armaduras brilhantes que faiscavam causando o estranho fenômeno atmosférico da Aurora Boreal. Elas sobrevoavam os campos de batalha escolhendo os melhores guerreiros, os mais corajosos, recém-abatidos eram escoltados para Valhala, o salão de Odin no Valhala, a morada dos deuses. Eles lutavam todos os dias e festejavam todas as noites preparando-se para Ragnarok, quando ajudariam a defender Asgard na batalha final, em que os deuses morreriam. Porém Odin tinha um acordo com a deusa Freya, chefe das valquírias, que levava metade desses guerreiros seu palácio.

Assim, como em Kali, esta qualidade irada é temível. No dialeto hindu, a palavra dakin refere-se a uma bruxa, como espírito feminino terrível, mas não necessariamente feio, podendo ainda chegar a corresponder um espírito feminino mágico, como uma Fada, relacionando-a as florestas e jardins ou as ninfas do céu. Mas, independente da aparência, dakinis são compreendas como manifestações que aparecem em forma feminina, a fim de ajudar os seres humanos.  Elas podem aparecer como linda donzela, voluptuosa, graciosa, pode ser até mesmo angelical.  Porém a Dakini aparece também como mulher feroz, para ajudar a superar os obstáculos da nossa aspiração de fazer progresso espiritual.  Eles são geralmente retratadas dançando e possuindo apenas jóias como suas vestimentas.

Ela é o feminino transcendente que manifesta-se em visões, sonhos, meditação e experiências. Para o meditador espiritual, Dakini simboliza os níveis de realização pessoal: a sacralidade do corpo, tanto do homem, como da mulher; em meditação, o profundo ponto de encontro de corpo e mente; o domínio da prática ritual, e, finalmente o vazio.

Outras funções de uma Dakini são a de protetora e de auxiliadora para atingir as quatro atividades iluminadas (pacífica, incrementadora, magnetizadora e irada). No budismo Vajrayana ela é a reveladora, condutora; a matriz ou a fonte da auspisiosa iluminação.   Em diversas práticas tântricas, a cooperação de uma Dakini, como consorte e companheira é considerado essencial, pois podem transmutar e transformar a energia sexual, usando o próprio desejo para libertar praticantes do apego e poder prosseguir co caminho.

Assim, como a Rainha das Dakinis, Vajrayogini é vista como “a última floração feminina de energia que se situa dentro de todos nós”, um Buda plenamente iluminado, a essência da totalidade-além dualidade, além do ego.  Ela reúne em si todas as qualidades budicas.

Vajrayogini também pode ser chamada de Khandaroha (em tibetano) que significa ‘aquela que atravessa o céu’ ou que “se move no espaço- ou vácuo-vazio-éter”, ou ‘bailarina do céu ” ou ” caminhante do céu” ou “sabedoria do vazio”. Ela é uma das divindandes mais presentes nas práticas tântricas (sadana) da atualidade pois, a prática que a ela pertence é a mais simples e ela também resume em uma única deidade de meditação todos os principais aspectos das demais, tanto femininas como masculinas. Vajrayogini esta presente em todas as escolas do budismo tibetano, inclusive desta geração de Lamas como Lama Yeshe, Lama Zopa, Geshe Kelsang Gyatso, Geshe Tharchin, Gehlek Rinpoche e outros.  Ela é uma jóia que liga o budismo, fonte de mediação tântrica que foi para o Tibete, para a China e está no ocidente, trazida por esses Lamas.

Figura – Vajrayogini

Mesmo com sua aparência irada, sua compaixão é ilimitadas por todos os seres. Sua oração, mantra, mandala e selo podem potencializar as mentes das pessoas no sentido da libertação. Ela age com intensivamente para eliminar, destruir o veneno da ignorância, do desejo, da aversão, da inveja e do orgulho, mas principalmente do ego, a noção do eu separado dos outros e do mundo.

Ela pode aparecer sozinha como também em união com um consorte, Heruka Chakrasamvara, neste caso seu nome é Vajravarahi, a Dakini da sabedoria, como acontece no Chakrasamvara Tantra.  Ela está associada com o Buda Vairocana, seu parceiro é Chakrasamvara, e ela foi a tutelar Dakini dos adeptos Marpa, Milarepa, Gampopa e Phagmogru.  Cinco das emanações Vajravarahi’s são conhecidos como os cinco Dakinis Sabedoria, que aparecem no chamado bardo, ou seja, no estado intermediário após a morte e anterior ao renanscimento.

Figura – Heruka com Vajravahari

Ela é a “Sarva-buddha-Dakini”, a Dakini que é a essência de todos os Budas. Vajrayogini, bem semelhante a Kali é mostrada, normalmente como uma jovem nua, de corpo vermelho translúcido escuro e está de pé.  Sua nudez mostra sua essência de vacuidade. Seu corpo vermelho significa o arder de seu fogo interior para destruir as delusões. Com mais um olho central mostra que não só apenas compreende o passado e futuro (os olhos da esquerda e direita) como sabe vivenciar o presente. Sabe estar presente, estar atenta a vida no memento real em que ela acontece. Este terceiro olho, fixado em sua testa verticalmente também representa a sabedoria superior.  Ela têm, em uma mão, um crânio cheio de sangue que pode também ser ser interpretado como com sangue menstrual ou o elixir da vida (Amrita, o néctar de êxtase), mas também significa sua experiência na chamada ‘clara luz de êxtase’ (a máxima realidade do vazio luminoso). Na outra mão e impõe uma faca curvada (Kartika ou Tri gug) simbolizando o poder de cortar o continuum das delusões e obstáculos.  Seu cabelo é preto e comprido indicando que está livre do ego. As vezes, se aparece com forma mais humana, têm cabelos cor de laranja. Usa uma grinalda de crânios humanos, uma pedra preciosa vermelha e oito raios de ossos na cabeça representando a perfeição de esforço de todos os Budas. Tem um colar de cinqüenta ossos que simbolizam as cinqüenta energias purificadas. Possui brincos (perfeição de paciência), jóias no pescoço (perfeição de dar), no coração (perfeição de estabilização mental), pulseiras nos braços e pernas (perfeição de disciplina moral) e na cintura. Carrega um khatanga (lança) inclinado contra seu ombro esquerdo, simbolizando sua união com o consorte Heruka (He= vacuidade, Ru=grande êxtase, Ka=união de vacuidade e êxtase) Chakrasamvara. Na extremidade do khatanga há um vajra  de ponta única que representa a proteção. Sua expressão é irada, apesar de bela.  Seu corpo está radiante vermelho aceso como o calor do fogo e está rodeada por um anel de chamas da sabedoria. Ela dança sobre dois cadáveres, que representam o domínio completo sobre as delusões do apego ao ego e a expriência, do ódio e da ignorância.  Vajrayogini é freqüentemente associada com triunfo dinâmico sobre ignorância e libertou-se dos medos do samsara e da individualidade, podendo enfim, conduzir todos os seres a este mesmo estado.

Figura – Vajra ou Dorge

Figura – Vajra ou Dorge duplo

A esfera celeste ou “terra pura” de dakinis é chamada Khechari.

O Mantra de Vajrayogini é: Om Om Om Sarwa Buddha Dakiniye Vajra Warnaniye Vajra Berotzaniye Hum Hum Hum Phat Phat Phat Soha, que significa:

– O primeiro OM simboliza o Corpo Verdade de todos os Budas; o segunda OM, o êxtase de Corpo de todos os Budas; o terceiro OM, a emanação de Corpo de todos os Budas (homenagem a Dharmakaya, Sambhogakaya e Nirmanakaya – corpos de Buda);

– SARWA Buddha DAKINIYE significa ‘Todos as Dakinis Budas’ (Dakini Interior), a clara luz da mente de um Buda (Vajrayogini a sua natureza de clara luz mente de Buda);

– Vajra WARNAYNIYE significa ‘ discurso vajra de Dakini’ (Vajrayogini está na natureza do discurso vajra de todos os Budas – vajra aqui é o grande êxtase inseparável da vacuidade);

– Vajra BEROTZANIYE significa ‘corpo vajra de Dakini’ (Vajrayogini é o corpo vajra de todos os Budas);  Hum Hum Hum é um pedido para Vajrayogini: ‘conceder as bênçãos de seu corpo, fala e mente para que atingir o corpo vajra, fala e mente de Budh ” (Hum energisa o pedido);

– Phat Phat Phat é o pedido: “pacificar os obstáculos exteriores, interiores e secretos’ (Phat é como um Mantra de destruição);

– SOHA constrói o alicerce de todas as realizações deste mantra ou que seja perfeitamente cumprido.

Figura – mantra Vajrayogini com sílaba semente BAM ao centro

Sua letra ou sílaba semente é BAM visualizada em vermelho e representa a natureza da mente de grande êxtase e vacuidade.

figura – sílaba semente BAM

Vajrayogini tem a função de Yidam (Aquilo), o arquétipo para meditação com o qual se mantém um compromisso (sânsc. samaya, tib. damtsig / dam tshig). Ydam é uma forma divina na qual vai substituindo a própria identificação (identificação com o Ego), integrando as virtudes (energia) e sabedorias relacionadas a esta forma (arquétipo).

Sua meditação acompanha uma mandala. Vajrayogini é o seu símbolo central, no meio de uma estrela de seis pontas (Selo de Salomão) que compreende dois triângulos entrelaçados significando a união dos opostos.

Figura – Mandala Vajrayogini I

Figura – Mandala Vajrayogini II

Mantra visualizações Vajrayoguini PDF Imprimir E-mail

Vajrayogini Mantra

BAM

Existe um número de maneiras para visualizar o mantra Vajrayoguini em torno da carta de sementes BAM. Comum a todas as tradições do Yoga é 9 (de recitação verbal e mental), com o pé BAM sobre uma almofada de lua dentro de dois tetraedros de interseção, o dharmodayo ( mais sobre isso na seção de FAQs). Veja uma versão animada no exemplo 1 abaixo.

Aqui é o (1 linha) versão em sânscrito:

Vajrayogini Mantra in Sanskrit

Aqui garland o mantra em sânscrito:

Vajrayogini Mantra in Sanskrit

Como as sílabas são dispostos em torno do BAM sentido anti-horário é sujeito a um ponto de vista diferente no Sakya e as linhagens Gelug. Na tradição Sakya ele lê as sílabas e na Gelug as letras de uma forma anti-horário. Você pode visualizar ou baixar o gráfico comapring ambas as visões de aqui .

A outra diferença passando por todas as tradições é se os stands de mantras ou círculos ao redor do BAM. Exemplos 1 a 3 seguir a primeira interpretação, por exemplo 4 a este último.

Versões animados:
exemplo 1 ] [ exemplo 2 ] [ Exemplo 3 ] [ exemplo 4 (intensivo de memória!)]