ZENEIDA, A PAJÉ DO MARAJÓ

ZENEIDA, A PAJÉ DO MARAJÓ
Fonte: José Ribamar Bessa Freire
15/07/2007 – Diário do Amazonas

Escrevo de Soure, na ilha do Marajó.  Vim convidado pela pajé Zeneida Lima de Araújo, de 73 anos, bisneta de Coemitanga, um xamã da etnia Sacaca.Com ela, vou escrever um livro sobre a pajelança cabocla do Marajó. Ela já é autora de um livro autobiográfico – O Mundo Místico dos Caruanas – editado em 1993, que conta sua trajetória de vida e recupera as narrativas míticas dos índios do Marajó, com os saberes sobre a floresta e sobre a medicina indígena.

Dona Zeneida, ao longo de sua vida, conviveu com alguns etnógrafos internacionalmente conhecidos como o francês Pierre Verger, que chegou ao Brasil nos anos 1950 na qualidade de fotógrafo e seu colega Roger Bastide, autor de vários estudos sobre a cultura brasileira. Bastide entrevistou dona Zeneida, registrando informações para escrever um livro inacabado sobre o mundo da encantaria marajoara. Os dois, junto com o etnógrafo Manuel Nunes Pereira, em suas obras se referem com respeito à pajé, com quem mantiveram rica correspondência. Algumas cartas desses três pesquisadores fazem parte dos arquivos de dona Zeneida.

Bisneta de pajé indígena, mas filha de um fazendeiro, advogado e político de renome no Pará, dona Zeneida sofreu discriminação de sua própria família, quando descobriram que ela era portadora de alguns talentos especiais. “Tenho 12 irmãos, mas durante muito tempo não mantive contato com minha família. Eles me desprezaram, por aquilo que eu representava na pajelança cabocla”, ela confessa.

Apesar da oposição, dona Zeneida foi iniciada na pajelança pelo mestre Mundico, que estava familiarizado com as energias viventes sob as águas, os encantados de água doce, chamados de caruanas e os de água salgada, conhecidos como caruás. Para Nunes Pereira, os caruanas constituem “uma manifestação impressionante das forças vivas da natureza. Eles são os senhores das águas do nosso planeta”. De acordo com a tradição marajoara, a fonte onde são gerados esses mistérios chama-se Patu Anu.

Em seu livro, prefaciado pela escritora Raquel de Queiroz, dona Zeneida apresenta a narrativa de criação do mundo, que vem dos índios Sacaca, e lhe foi contada pelo mestre Mundico. “No princípio, o mundo era só água. Um dia, o Grande Girador – criador do mundo – trouxe Auí e seu povo e mandou que construíssem sete cidades. Todos viveriam felizes desde que não olhassem para o fundo das águas, sob pena de serem tragados. E foi o que aconteceu como castigo pela desobediência cometida. A cabeça de Auí foi partida em três e deu origem aos reinos mineral, animal e vegetal. A terra que estava no fundo das águas veio à superfície e o Girador tornou a povoar as cidades, É justamente essa energia ligada ao encanto das águas que é usada no processo de cura”.

Seu poder de cura já havia sido anunciado pelo bisavô indígena. “Ele dizia para meu avô que o herdeiro da pajelança viria através de um filho dele”. Desde os onze anos, dona Zeneida já sabia fazer remédios extraídos da floresta, de ervas e plantas, de caranguejos e besouros. “As receitas simplesmente me vinham à cabeça como hoje me vêm as músicas que componho e as poesias que escrevo”, diz, acrescentando que também muito aprendeu com mestre Mundico, que lhe ensinou os segredos da natureza. A partir das águas, ela mobiliza as energias da natureza, no sentido da cura física, mental e espiritual.

“Vejo a energia da pessoa e, através dela, sei se está doente e até qual o mal que está sentido. Dependendo do caso, uso remédios do reino animal, vegetal ou mineral”. Com um chá de folhas de mamoeiro e água de poço, dona Zeneida curou de vez uma inflamação do cólon – uma colite – do seu filho Marcelo, que já havia sido desenganado pela medicina. No entanto, ela adverte: “Um pajé não é Deus. Certas curas não estão ao nosso alcance. É fundamental ter esta consciência até para, muitas vezes, aconselhar a procurar um médico. Eu não melhoro a vida de ninguém. A própria pessoa é que precisa encontrar a força para se erguer. Apenas transfiro energia para que isso aconteça”.

O livro escrito por dona Zeneida acabou caindo nas mãos da Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis, que o escolheu como tema para o carnaval de 1998: “Pará, o mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-Anu”, com samba enredo cantado pelo Neguinho da Beija-Flor. Ela não queria, inicialmente, participar do desfile, mas acabou convencida com os argumentos de que o carnaval serviria para divulgar sua luta em defesa da natureza e da cultura da pajelança cabocla do Marajó. Nessa época, a mídia abriu espaço para ela e seus saberes, com matérias publicadas na grande imprensa, como o Jornal do Brasil, assinadas pelas jornalista Lena Frias e Juliana Caetano e várias revistas de circulação nacional. Mereceu um espaço nobre no `Globo Repórter`e um programa especial da Globosat.

“O homem está destruindo tudo, acabando com o planeta. Se continuar assim, vamos todos terminar numa grande solidão”. Ela criou uma organização não governamental, com a finalidade de defender o meio-ambiente e de educar as crianças de Soure, mantendo uma escola conveniada onde 320 crianças estudam em tempo integral. Com isso, recebeu apoio de diferentes instituições nacionais e internacionais como a UNESCO, a FAO, a Universidade Federal do Pará, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro e a Petrobrás, através da Gerência Setorial Norte de Segurança, Meio-ambiente e Saúde da Petrobrás.

O coordenador de Projetos da Gerência da Petrobrás, Igor Melo e a Consultora na área de Saúde, Nazareth Solino estão apoiando também a realização das Jornadas de Cultura do Marajó, realizada anualmente pela ONG Caruanas. Já ocorreram três jornadas e em setembro acontecerá a IV Jornada com a presença de Alcindo Werá, pajé guarani da aldeia de Biguaçu (SC). A terceira jornada contou com a participação da cineasta Tizuka Yamazaki, que está fazendo um filme sobre a vida de dona Zeneida. A IV Jornada contará com a participação do músico Egberto Gismonti, que já gravou mais de cem músicas cantadas por dona Zeneida, algumas delas cantadas em língua geral, herdada dos índios, mas a maioria de sua própria autoria.

Essa é dona Zeneida, a pajé cabocla do Marajó, cuja vida foi dedicada ao processo de cura, pelo qual não cobra um centavo, e à defesa da floresta, das águas, dos direitos das crianças, presentes em doze livros que escreveu centrados na educação ambiental.

 

Pajé Zeneida Lima continua a realizar rituais de cura no Marajó

Fonte: https://www.diarioonline.com.br/: 26/11/2017,

Pajé Zeneida Lima continua a realizar rituais de cura no Marajó  (Foto: Marcelo Lelis/Agência Pará)

Zeneida Lima, em Soure, onde participou do lançamento do filme de Tizuka Yamasaki sobre sua vida. (Foto: Marcelo Lelis/Agência Pará)

Zeneida Lima era menina do mato e na infância andava como bicho revolto pela densa vegetação amazônica, entre o alagado do mangue e a terra firme da Ilha do Marajó. Corria nos pastos da fazenda do pai, o ex-deputado, advogado criminalista e latifundiário Angelino Lima – aliado do governador Magalhães Barata – e por vezes, dada como louca, precisava ser laçada como boi pelos vaqueiros. Ainda na primeira infância, foi acometida por doenças misteriosas, que a faziam vomitar sangue e tremer de dor. Entoava cânticos em uma “língua enrolada”, tinha acessos de violência com quem chegasse perto dela, agredindo as pessoas. Chegou a ser colocada em uma despensa e trancada por dias na Fazenda Independência, onde morava com a mãe e a empregada Cotinha, enquanto o pai trabalhava em Belém.

Ainda na infância, Zeneida ficou desaparecida por 17 dias no arquipélago. Foi achada por um encarregado da fazenda, dentro de um casulo de folhas e galhos, sem roupa e com vários arranhões e desenhos, como tatuagens, de bichos, folhagens, árvores. Ela relatou que tinha visões de seres compridos, com pele azul escamosa, que a chamavam para dentro da mata e para o rio. Para os demais, que a ouviam incrédulos à época, Zeneida só podia ser louca mesmo. “Esses seres tinham a pele caída, com pé palmiforme e nadadeiras. O rosto era comprido. Eles me trouxeram uma baga de frutas amarelas e me ofereceram. Eu disse que não queria. Eu andava de um lado para o outro do rio como se estivesse sendo carregada. Sentia algo ardendo no meu corpo todo. Quando me encontraram depois que desapareci, só não era surrado o meu rosto, a palma da minha mão e a do pé. Meu cabelo era grande e tinha maçarocas, papai teve que cortar. Fiquei alucinada, para onde olhava, via os homens de pele azul me chamando. Papai era político e achava que meu desaparecimento era golpe. Como me acharam nua, ele me levou para Belém para saber se tinham me tocado, achava que tinham me deflorado, mas não tinha nada”, conta.

Aqueles que acreditavam nas lendas e na cultura oral da região não tinham dúvidas, após o episódio do desaparecimento: a menina havia sido alvo da flechada de Anhanga e por isso era necessário levá-la até um pajé. O pai, cético, achava que tudo não passava de crendice. Já a mãe, Zezé, atordoada com os males da filha e ao mesmo tempo desconfiada dos falsos curandeiros da região, acabou sendo convencida de que era melhor buscar orientação de um mestre da cultura popular. Mesmo desconfiados, com 11 anos, Zeneida foi “sentada” pajé por Mestre Mundico, em Soure, há 72 anos, num ritual místico. Hoje, aos 83 anos, ela diz não lembrar de nada do que lhe ocorrera na tenra idade e conta os causos a partir das memórias da mãe, que ela fez questão de registrar no livro “O Mundo Místico dos Caruanas e a Revolta de Sua ave”, que teve a primeira edição lançada em 1992. Dez anos depois, a obra foi relançada com o título “O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó”, com uma narrativa autobiográfica em que conta sua iniciação na pajelança cabocla e os episódios que inspiraram o filme “Encantados”, de Tizuka Yamasaki, com estreia nos cinemas no próximo dia 7 de dezembro.

“Fiquei um ano aprendendo a mexer com as ervas. Aprendi muita coisa, vocês não podem imaginar”, Zeneida Lima (Foto: Marcelo Lelis/Agência Pará)

De bruxa temida à curadora respeitada

“Mamãe era muito católica, não queria, mas mandaram buscar um pajé e ele disse: ‘ela foi flechada por Anhanga, tinha que ser sentada com sete anos de idade como pajé. Como já está com 11, já passou da idade, então tem que ser agora’. A partir disso fiz toda a preparação para me tornar pajé com Mestre Mundico. Fui sentada nos sete braços do igarapé e fiquei um ano aprendendo a mexer com as ervas. Aprendi muita coisa, vocês não podem imaginar”, relembra.

No ritual para se tornar pajé, Zeneida conta ter tomado azougue – uma cuia pequena com mercúrio- , junto com uma gema de tartaruga e suco das ervas. “Senti um peso”, diz. Lembra que Mestre Mundico disse à mãe dela que aquilo era a ligação de Zeneida com a natureza.

Ela se tornou pajé – ao contrário do que se possa imaginar, não é uma função incomum a mulheres, na tradição cabocla da pajelança, segundo Zeneida -, mas não deu ouvidos ao que sentia e foi morar no Rio de Janeiro aos 17 anos, já casada e com filhos. Passados 27 anos no Sudeste, ouviu o chamado de seu dom e voltou ao Pará, Foi direto para Soure, na Ilha do Marajó, reconectar-se com o mundo dos encantados, os caruanas – ou a própria força da natureza.

Zeneida é uma personalidade reconhecida e respeitada em Soure. Mas já enfrentou a desconfiança e mesmo a violência de quem não entendia suas relações místicas com a natureza – chegou a ter sua casa atacada por pessoas que a acusavam de ser uma bruxa e de fazer o mal. Hoje é conhecida por ser curandeira, se orgulha da sua trajetória e coordena o Instituto Caruanas do Marajó – Cura e Ecologia, que atende crianças no município.

O QUE É ANHANGA

Mas afinal o que é Anhanga e por que sua flechada acomete as pessoas de forma negativa? Em um dos trechos do livro “O Mundo dos Caruanas”, Zeneida explica:
“Anhanga está em tudo, entre as pessoas, os fenômenos e as coisas, integrando-se no pai e na mãe, no dia e na noite. Tudo converge para uma única entidade, a natureza que permite a nossa existência. Para existir, a natureza precisa estar em completo equilíbrio com todos os elementos que a compõem. Quando o equilíbrio é quebrado, surge a desarmonia entre as pessoas e a ordem natural dos fenômenos e das coisas se altera. Libera-se Anhanga, que atua sobre tudo, até que a natureza reponha em ordem o que foi desarranjado. Anhanga é força, energia e poder de carga negativa. Pode provocar o bem e o mal, porém um é parte do outro”.

“Cura é responsabilidade”, garante a pajé

Zeneida reconhece seu dom e não gosta de contar sobre os casos de cura física e espiritual que já realizou e que está realizando. Ela é simples, tem na natureza a sua maior crença e diz que por isso respeita os caruanas – as entidades que representam essa potência que vem da terra. Ela se diz conectada com essa energia que provém de sua fé e que foi herdada de seus ancestrais – Zeneida é bisneta de Coemitanga, um xamã da etnia Sacaca.

Mas durante a entrevista coletiva para o lançamento do filme “Encantados”, permitiu-se falar um pouco sobre como ocorrem essas curas, reiterando: “cura é responsabilidade”.

“Vocês sabem o que é piquiá? É uma fruta que tem boquinha cheia de espinho, que quando entra é difícil tirar, ele vai enterrando mais. E me procurou uma senhora dizendo que estava cheia de espinhos nas mãos, ela estava chorando. Eu disse: ‘bora ali na cidade onde tem uma árvore de piquiá’. Chegando lá, disse para ela se abaixar e ficar de quatro, e que roncasse como um porco, remexendo a terra. Ela fez tudo isso e depois eu disse que ela poderia voltar para a casa dela, e que voltasse no outro dia comigo. Ela voltou e os espinhos estavam todos pontudos e tirei tudo com uma pinça. Se contar, ninguém acredita, mas isso são coisas que existem e são verdadeiras. São coisas que a natureza mostra. Eu me pergunto até hoje o que eu tenho, o porquê de eu ser assim”, revela.

O que Zeneida não duvida é que seus dons vêm da natureza. E que ela é sagrada. “Quando faço trabalho para curar uma pessoa, encosto ela numa árvore e vejo na própria árvore um termômetro. Sabe quando sobe aquilo branco no termômetro? É assim que vejo subindo e percebo parar onde está a doença da pessoa, se é no estômago, intestino, pulmão, na cabeça. Tudo isso existe, e eu vejo essas coisas. Se alguém me diz que tem uma doença, vou no quintal e vejo as plantinhas, vejo que elas ensaiam uma dancinha e ficam todas transparentes e depois ficam verdinhas. E decido, com essa planta vou fazer isso, assim, assim. Faço o remédio. Alguma coisa demais eu tenho, eu sinto a mudança da lua, do tempo, do vento, da chuva”, diz ela, lembrando que suas pajelanças e misturas de ervas medicinais dependem mais da pessoa para quem ela realiza o ritual e que é necessário equilibrar as energias.

(Dominik Giusti/Diário do Pará)